Uma ponte para o futuro

O vice-presidente Michel Temer também é o presidente nacional do PMDB. Na condição de maior partido da aliança, telefonou ao presidente do PT, Rui Falcão, avisando sobre o documento que seria divulgado no dia seguinte, como em situação de grave risco, uma profunda recessão que deve durar até 2016, juros elevados e inflação em constante ameaça de sair de controle. Entre as críticas ao governo, o PMDB se refere aos excessos cometidos pelo governo federal nos últimos anos, ocasionando desajuste fiscal que chegou a um ponto crítico. Os correligionários receberam cópia do documento diretamente da Fundação Ulysses Guimarães, pertencente ao PMDB. O vice-presidente Michel Temer divulgou-o durante encontro com jornalistas no Palácio do Jaburu, em Brasília. Com 19 páginas, as propostas serão discutidas no congresso nacional do PMDB, no próximo17 de novembro.

O documento é ousado, a começar pelo título, Uma ponte para o futuro. O PMDB deixa claro que não participará de outro projeto como mero coadjuvante. Quer assumir a responsabilidade de eleger um presidente da República e mostrar que tem condições de salvar o País. Os líderes mais comedidos do PT admitem que se trata de uma contribuição importante, mas é preciso analisar as entrelinhas da mensagem. O partido não deve recepcionar todas as sugestões, mas não deve silenciar ante uma proposta que foi elaborada com a participação do empresariado nacional. Por isso mesmo é que o PT deve analisar com cuidado o que está sendo proposto, não podendo simplesmente ignorar suas propostas. Desde que foi divulgado, as manifestações de apoio se multiplicam por toda parte. O PMDB não poderia ter proclamado grito de independência.

O ex-ministro Delfim Neto, que participou de vários e diferentes governos, chegando a ser uma espécie de consultor dos governos do PT, foi o responsável pelo capítulo econômico do documento.
Talvez o documento não receba a concordância de todo o PMDB, um partido que não prima pela coesão. Basta verificar que hoje existe um PMDB trabalhando pelo impeachment de Dilma Rousseff e outro PMDB que trabalha com a possibilidade do governo permanecer em sua íntegra, até completar o mandato da atual presidente. O partido reconhece que a retomada do poder é uma tarefa gigantesca que exigirá o apoio político de todos os seus membros, diminuindo ao máximo as áreas de atrito. Interesses próprios terão de ser abandonados, ao menos temporariamente, para a concretização do ambicioso projeto que começou a ser debatido com a sociedade brasileira.

A ponte para o futuro defende o cumprimento pelo governo do Orçamento aprovado pelo Congresso. Propõe acabar com despesas constitucionais obrigatórias com a saúde e a educação. As indexações, inclusive para salários e previdência, deixarão de existir. Os reajustes salariais serão definidos anualmente pelo Congresso e pelo Executivo. Para aposentadoria, será respeitada a idade mínima não inferior a 65 anos para homens e 60 para mulheres. Serão retomadas as privatizações e os impostos serão simplificados e reduzidos. Na área trabalhista, os acordos coletivos predominarão sobre as normas legais, resguardados os direitos básicos nas negociações entre empregados e patrões. A política externa deverá seguir novo modelo, de acordo com as transformações que ocorrem no mundo globalizado. As entidades de classe consideram o documento do PMDB um ponto de partida para construção de agenda capaz de restaurar a confiança do País.