Uma crônica para novembro

Novembro desfila os seus últimos dias no calendário cansado deste ano incomum. Mas, hoje, não vou oferecer esta página para os inumeráveis assuntos que pulularam, meses e meses, frente aos nossos olhos estupefatos: crise econômica, operações policiais, violência urbana, drogas, assassinatos, acidentes ecológicos, terrorismo mundial, etc.
Acordei cedo, e o vizinho me afirmou (não sei se por educação ou por sinceridade) que gostava de ler os meus textos nos periódicos: “Em especial, as crônicas!” Despedi-me dele com um sorriso (não sei se sincero ou protocolar), deixei o lixo no depósito do prédio e entrei. Preparei um café, bebendo-o com os olhos vagos na distância. E, pouco depois, aqui estou, frente ao meu ofício de cronista semanal.
Folheio as minhas anotações, porém nada havia rabiscado como assunto, mote para discorrer.
Quando levanto os olhos da tela do computador, a presença de um pequeno calendário toma a minha atenção. Nele, duas folhinhas de resto: novembro e dezembro. Novembro marcando 23.
Será que este novembro merece uma crônica? — inquiro-me. Volto os olhos no tempo e corro as últimas semanas num trotear acelerado e atento: nada de sublime, apesar de muitas coisas trágicas. Porém, concluo, o trágico já foi ofertado em doses fartas nas outras páginas dos jornais! Quer no campo da política, quer na pauta da economia, quer nas manchetes dos temas internacionais.
“E com o quê você queria se deparar?” — instiga-me o paciente leitor.
Ah!, sinceramente, não sei. No mínimo, o flagrante de uma flor teimosa que pudesse ter encantado os jardins (e os corações?) esturricados pela falta d’água nesta nossa região. Contudo, não me lembro de ter presenciado tal cena.
Ou, quem sabe, um nascer do sol com pinta de romantismo, banhando de carinho e carícia, este fim de ano tão tomado pelo desemprego da alegria.
Se não isto, pelo menos um gesto de amizade e amor por ente os nossos cidadãos. Como? Não queria a lembrança de algo descomunal e milagroso. Não, algo bem simples. Como, por exemplo, ao caminharmos para os compromissos diários, alguém resolvendo parar, convidar um cidadão que passa cabisbaixo, dar-lhe um abraço e entrar na primeira cafeteria que encontrarem; lá, falando apenas acerca de coisas que tragam o riso e a beleza para os lábios antes tão ferrados pela dor do irmão.
Ou o flagrante de um casal sentado na praça, a ler e reler as cartas que cada um escrevera ao outro, à época da conquista do namoro. Deleitando-se com cada passagem e reafirmando as juras de amor eterno lá contidas. Entremeando, entre cada epístola, um beijo ardente, tal qual o que plantavam nos lábios um do outro no fogo da paquera de então.
Ou alguém alumbrado na leitura de uma crônica que decantasse coisas tão pequenas, segundo os pragmáticos, e tão fundamentais, segundo os poetas. Lembrei-me de Carlos Nejar: “A diferença entre um poeta e um homem comum é a de que aquele leva a alma nas costas e esse leva as costas na alma”. Daquelas páginas que — por nos serem tão encantadoras e agradáveis, por abordarem algo que sempre quiséramos expressar — decidimos recortá-la, levá-la no bolso e dividi-la com os amigos e conhecidos rua afora.
No entanto, novembro vai findando… e eu ainda não flagrei nada disso. Tal qual um cometa sem brilho no horizonte dos dias, novembro não nos deixou o seu rastro de luz? Ou fui eu que não tive a serenidade, a sapiência e a sensibilidade de colher tais “momentos”?
Crise econômica, operações policiais, violência urbana, drogas, assassinatos, acidentes ecológicos, terrorismo mundial… Tantas más notícias embotaram este cronista?
E você, leitor, colheu algo especial neste novembro? Também não!
Melhor, então, ficar por aqui. Há meses em que a crônica não se nos anuncia.

Bom domingo.