Ulisses Liberato de Alencar: Ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão

Apesar de ter se destacado entre os mais cultivados e astutos chefes de cangaço do início da segunda década do século XX, Ulisses Liberato de Alencar foi um proeminente membro da orgulhosa aristocracia rural que se formou no sertão nordestino com o apogeu da cotonicultura no século XIX e parte do século passado.

Ulisses nasceu em “berço de algodão” na fazenda “Estrelo” no ano de 1894, natural do município de Pombal, cuja localização geográfica está no alto sertão da Paraíba, situado a quase quatrocentos quilômetros da capital, na confluência dos rios Piranhas e Piancó.

Seu pai era o fazendeiro e almocreve Francisco Liberato de Alencar, descendente do mesmo ramo familiar do qual faz parte o romancista cearense José de Alencar. Do lado materno descendiam de judeus. A mãe de Francisco Liberato de Alencar, de nome Ana Maria da Conceição, dos Cardoso D’Arão, era filha de um descendente de cripto-judeu de nome João Ignácio Cardoso D’Arão, cujo pai fugiu do litoral paraibano para escapar das perseguições da inquisição que acusava a comunidade de prática judaizante, estando a mesma localizada, mais precisamente, na área adjacente a Gramame, em uma localidade conhecida por Engenho Velho.

Após a fuga se homiziaram no cariri cearense e depois em uma localidade conhecida por Mari dos Seixas, município de Sousa, Estado da Paraíba, rumando depois para Pombal, onde se instalam definitivamente.

Até 1914 o futuro líder bandoleiro era apenas mais um entre tantos sertanejos que labutavam nas adustas plagas tórridas da região do Piranhas-Piancó. O seu espírito belicoso e aguerrido só despontou com ênfase quando da seca de 15. Esta estiagem destruiu as economias amealhadas a custo pela outrora imponente família Liberato de Alencar, embora passado o rigor climático tenha havido o equilíbrio das finanças dos alencares.

Associado a essa desgraça cíclica veio a morte de Francisco Liberato de Alencar, fazendo com que Ulisses se aproximasse de famílias abastadas que personificavam a classe dominante da hinterlândia paraibana. Situavam-se degraus acima dos alencares na estamentação da sociedade sertaneja agro-pastoril.

No complexo inter-relacionamento entre oligarquias havia laços de suserania e vassalagem conforme os favores e benesses concedidos. Os alencares já não dispunham de posses que rivalizassem com famílias historicamente detentoras do mandonismo local, como Queiroga e Fernandes. A submissão de Ulisses o levou aos caminhos da vida marginal.

Favores “exigidos” por “protetores” dos momentos de infortúnios comprometeram a família e o próprio Ulisses. Já não era o considerado filho do respeitado e rico fazendeiro do “Estrelo”.

Transformou-se rapidamente em um bandido que roubava e matava a serviço da falta de escrúpulos e da ausência de valores. Selava assim o seu destino às leis do bacamarte e da lazarina.

O prestígio dos alencares, decaído em razão da inserção de um membro da orgulhosa aristocracia do algodão nas hostes do cangaço, amalgamado com os efeitos da seca inclemente, precisava ser reerguido.

Ulisses foi enviado pela família a São Paulo a fim de se regenerar. Logo a solução se mostrou inviável, pois o bandido não demorou o bastante na região Sudeste. Retornou ao sertão e recomeçou toda uma série de estrepolias e escaramuças.

Antigos “protetores” começaram a se mostrar preocupados com aquele “arquivo vivo” solto na caatinga. Não era em vão o temor que os caudilhos sertanejos demonstravam.

Dotado de um temperamento violento e impulsivo, Ulisses invadiu a fazenda “Bom Jesus”, em Pombal, surrando impiedosamente a sua proprietária de nome Antônia Maria da Conceição em razão que esta o estaria difamando, comentando seus crimes nas redondezas. Contemporâneos do bandido, no entanto, afirmavam que o mandante de tal atrocidade tinha sido famoso “Coronel” que marcou época no sertão, implicado diretamente nas desditas da ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão.

As conseqüências desse ato se revelaram negativas a Ulisses e aos mandatários de baraço e cutelo, vindo à tona diversos crimes praticados pelo futuro cangaceiro. A partir disso ele se tornou mais perigoso, representando uma ameaça mais latente aos seus antigos “protetores”. O caminho a seguir era o cangaço, ombreando com salteadores famosos do nordeste semi-árido a sua triste sina.

Continua…

José Romero Araújo Cardoso
Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.