Ulisses Liberato de Alencar: Ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão – continuação

Ulisses se tornou mais um cavaleiro nômade vestindo a couraça dos guerreiros sertanejos. Empunhou o rifle, amolou a faca que um dia seu pai abriu caminho na caatinga conduzindo tropas de burros, e formou seu bando com a matéria-prima inesgotável na região. Onde há miséria e perseguição não faltará quem viva à margem da sociedade alardeando a revolta aos quatro cantos.
Suas ações, rápidas e precisas, valeram-lhe fama e respeito de outros grupos bandoleiros. Em considerável parcela da região semi-árida de quatro Estados nordestinos seu nome granjeou notoriedade fabulosa. Boa parte da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará e de Pernambuco registrou as ações espetaculares de Ulisses Liberato de Alencar.

A definição de um dos valhacoutos da fera sertaneja na localidade do Barro, Estado do Ceará, feudo inconteste do todo poderoso “Major” José Ignácio de Sousa, determinou a aproximação do cangaceiro com outro proeminente membro da oligarquia sertanejo, não menos afortunado que Ulisses. Atendia pelo nome de Sebastião Pereira e Silva, o célebre “Sinhô Pereira”. Junto com o primo Luiz Padre moviam luta sem quartel na secular guerra interfamiliar envolvendo sua família e a dos Carvalhos.

O “Major” José Ignácio era um dedicado coiteiro, considerado o maior de todos. Amigo dos alencares, principalmente de Argemiro, agente econômico na comercialização das famosas rapaduras dos engenhos do velho caudilho cearense no sertão da Paraíba.

Já cangaceiro profissional, Ulisses resolveu se casar com uma sertaneja de nome Santina. Corria o ano de 1918. As perseguições ininterruptas passaram a atingir além do “Estrelo”, nas localidades onde residam os parentes de sua esposa. Torturas e sevícias eram os métodos mais utilizados pelas forças volantes a fim de obter informações sobre o paradeiro do bandido.

O cangaceiro só podia amar com satisfação o cheiro da caatinga molhada depois das chuvas que põem fim às secas, o xiquexique trespassado de espinhos e as colinas sertanejas, seus esconderijos mais usuais. Além disso, apenas a confiança em suas armas e a frieza dos seus punhais. O casamento era uma instituição social que não podia ser desfrutado plenamente pelos bandoleiros das caatingas.

No Barro Ulisses firmou sólida amizade com o vingador do sertão do Pajeú, passando de chefe de grupo independente a de subgrupo do bando de Sinhô Pereira. Neste ensejo estendeu sua luta a Pernambuco. No mesmo ano que se casou houve uma verdadeira devassa no território controlado pelo velho “Major” José Ignácio. Acossado por volantes cearenses, o famoso coiteiro deixou o nordeste em companhia de Luiz Padre, homiziando-se no Estado do Goiás, onde foi assassinado na localidade de São José do Duro (hoje Estado do Tocantins).

Em 1919, unindo forças com o grupo de Sinhô Pereira, destroçaram volantes aquarteladas na vila de São Francisco de Villa Bella (hoje Serra talhada, Estado de Pernambuco).

Nas batalhas travadas Ulisses teve por companheiros todos os maiorais do banditismo rural que infestava o nordeste, destacando-se entre estes, além do comandante já citado, àquele que se tornou o “rei de todos os cangaceiros”: Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.

O ataque à vila de São Francisco repercutiu negativamente, pois a perseguição recrudesceu de forma impressionante. Antigos aliados do “Major” José Ignácio que ainda lhe dava proteção no Estado do Ceará garantiam-lhe ainda relativa segurança.

Em Cantinho do Feijão (hoje Santa Helena, Estado da Paraíba), uma pequena localidade situada no alto oeste paraibano, fronteira com o Estado do Ceará, Ulisses firmou base estratégica.

Para tanto, contou com a proteção forçada de um parente relativamente abastado para a época, residente nesta localidade. Chamava-se Alfredo Cardoso D’Arão, homem muito respeitado no lugarejo fundado por Raimundo Luiz, pai do cordelista Raimundo Santa Helena. Mais tarde, no ano de 1927, o fundador, que na ocasião ocupava o cargo de subdelegado da localidade, foi morto num ataque fulminante do bando de Lampião, quando do deslocamento em direção ao Estado do Rio Grande do Norte, objetivando atacar Mossoró.

Usando a propriedade do parente como base avançada, Ulisses desferia ataques violentos às fazendas vizinhas, bem como às localizadas no Estado do Ceará, exigindo tributos dos desditados fazendeiros. Aqueles que o desafiasse enfrentaria sua vingança terrível. Ulisses não era de brincadeira, assim como seu bando sinistro.

O casamento de Argemiro Liberato de Alencar com Dona Maria Mafalda de Alencar aproximou Ulisses do Estado do Rio Grande do Norte. Nesse ensejo, estabeleceu seu ponto estratégico na fazenda Jordão.

No dia 11 de setembro de 1922, o fim do apogeu da era Ulisses no sertão de quatro Estados foi selado definitivamente. Encontrava-se em missão de observação na localidade Alagoinha de Lavras da Mangabeira (Estado do Ceará) quando foi preso. Encontrava-se sem o bando. Para não chamar atenção havia preferido agir sozinho na missão que fora a última.

Recambiado à cadeia da cidade do Crato (Estado do Ceará), foi minuciosamente inquirido. A transferência do bandoleiro, para a cidade de Pombal, foi requisitada a fim de que ele respondesse inúmeros inquéritos.

No entanto, o real sentido da transferência era dar prosseguimento à “queima de arquivo” que havia sido planejada pelos poderosos caudilhos que o haviam envolvido na vida de crimes.

No mês de setembro do ano de 1923 foi sumariamente fuzilado. Junto com Ulisses morreram dois companheiros de escaramuças que também se encontravam presos. Com Chá Preto e Polvrinha fez a última viagem, sem retorno, pois quem comandava a escolta policial era um dileto soldado-jagunço a serviço de quem o queria morto. Era o fim da valente ovelha desgarrada que a opulência e a miséria do algodão geraram no sertão do Estado da Paraíba.

BIBLIOGRAFIA

BARRETO, Alício. Solos de Avena. João Pessoa/PB: A Imprensa, s. d.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: O banditismo no Nordeste do Brasil. Recife/PE: Ed. Massangana, 1985.

Entrevistas Pessoais:

CARDOSO, Vicência (Dona Lunguinha). Pombal/PB – 15 a 16 de junho de 1992.

SOUSA, Benigna Lourdes de. João Pessoa/PB – 18 a 31 de maio de 1993.

José Romero Araújo Cardoso
Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Uern. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente