TOURADA NO JL

Nilo Emerenciano - arquiteto, escritor e articulista

Poucos lembram, mas a cidade do Natal foi palco, em vários momentos da sua história, de eventos e costumes no mínimo insólitos. Câmara Cascudo, em sua História da Cidade do Natal, relata a existência de um triste costume, a peregrinação feita de porta em porta, pelo condenado a enforcamento, algemado, acompanhado por um soldado, pedindo dez réis, um vintém, uma esmola, para pagar a missa do enforcado, a ser rezada na véspera do seu próprio enforcamento. “Uma esmola para a missa do enforcado”, gritava em voz triste, até juntar o necessário.

O relato da prisão e morte de André de Albuquerque, ferido à espada, recolhido no calabouço do Forte dos Reis Magos, sem receber água nem tratamento médico, carrega uma dramaticidade digna de nota. E mais ainda a atitude da dona Rita Coelho, mulher destemida, que ousou deter a escolta que arrastava pela rua o corpo sujo de sangue e envolvê-lo, caridosamente, em uma esteira de palha.

Mas o que muito me agrada, pelo aspecto poético, é o registro que Cascudo faz do homem que manejava bandeiras azuis ou vermelhas no alto da Torre da Matriz. Era o Alvissareiro, que sinalizava ao povo da pequena cidade a chegada de barcos vindos das bandas do sul ou do norte em nosso porto, trazendo pessoas, notícias e encomendas.

A maneira pela qual “ganhamos” uma santa padroeira carrega um que de lendário, místico e romântico. Em 1753 (ou 1736) uma caixa foi pescada no local que hoje é chamado pedra do Rosário, às margens do rio Potengi. Aberta, a caixa trazia uma imagem da santa do Rosário com o Menino Jesus em uma das mãos e a outra mão estendida, vazia, como se sustentasse um objeto. Havia também uma inscrição que dizia que nossa cidade passava a ser abençoada e protegida pelos céus a partir daquele miraculoso evento. Contrato firmado, a santa, agora chamada Nossa Senhora da Apresentação, é até hoje a nossa protetora e guia.

Mas além do Mestre Cascudo tenho minhas próprias lembranças. O velho Estádio Juvenal Lamartine, onde aconteciam os épicos embates entre o ABC e América, serviu, ao longo da sua existência, para todo tipo de espetáculo: shows de rock, artistas diversos, bingos, Xuxa, rainha dos baixinhos, e até uma tourada.  Pois é. No início dos anos 1960 o campinho foi usado para a realização de uma tourada com toureiros espanhóis de verdade, paramentados e tudo mais, inclusive aqueles lançadores de dardos coloridos chamados picadores. No centro do gramado ergueram um curral para servir de arena. O problema foi a inexistência, na região, de touros bravos, aqueles touros negros furiosos das plazas de toros de Madri. E aí colocaram uns pobres animais locais, touros já bem rodados, que talvez fossem bons reprodutores, mas nem um pouco aptos para aquela atividade estranha aos seus costumes. Esses touros nativos não davam nem bola para a agitação dos panos vermelhos por mais que fossem provocados, xingados, espetados, achincalhados. Sentiam falta, acho, dos familiares vaqueiros de gibão de couro e dos aboios das vaquejadas. E pouco caso faziam da “cuadrilla”, formada por estranhos, gringos sem modos e vestidos daquela forma espalhafatosa, calças coloridas coladas no corpo e falando uma língua estranha.  Nossos touros lançavam olhares desconfiados para aqueles trajes e se postavam irredutíveis, com uma paciência bovina, e não havia Luis Miguel Dominguín que os tirassem de sua imobilidade. Duro para os toureiros manter um restinho de dignidade ante aquela situação. Acho que foram bem vaiados, não os touros, esses aplaudidos pela torcida que já se formara, mas os “matadores”, junto com a sua patética equipe.

E a cereja do bolo das minhas lembranças, sem dúvida alguma, são os bombardeios realizados na praia do meio.

Não, não fomos invadidos em tempos modernos. Longe disso. É que no dia da Asa, como parte das comemorações, a Aeronáutica promovia um espetáculo impossível de acontecer nos dias politicamente corretos de hoje. Era uma exibição de tiro e bombardeio feito em plena praia do Meio. O público – homens, mulheres e crianças – ficava na calçada oposta da Av. Café Filho, enquanto os aviões davam rasantes e atiravam ou lançavam bombas sobre alvos colocados sobre os parrachos e no mar. Os alvos sobre os parrachos eram cabanas improvisadas contendo tonéis com algum material combustível que, quando atingidos, provocavam um belo efeito de fogo e fumaça. A garotada amava aquilo tudo, a chance de assistir, ao vivo, o que só podia ver no cine Rex, em filmes tipo Afundem o Bismarck (1960). E vibrava, comemorando, quando um alvo era atingido em cheio.

Ah, a infância… Diziam-me, e eu não acreditava, que um dia ia ter saudades daquilo tudo. Hoje sei que é verdade. Mas uma saudade boa, sem arrependimentos. Renato Russo cantava: “todos os dias quando acordo/não tenho mais o tempo que passou”. Tinha razão. Não temos mais o tempo, mas temos as lembranças, com o olho sempre no presente, esse, sim, o melhor tempo de todos.

Natal/RN