Tidó

Conhecia Tidó desde sempre. Foi ídolo de gerações. Meu pai, criança, ouvia suas aventuras. Eu, menino, viajava nas histórias sobre o Mar das Maias, as botijas, as façanhas do lendário Jeremias, o batatão, a nuvem chupando água, os mal-assombros, as pescarias épicas.

Ele e Ananias, outro lobo do mar, presenças constantes no alpendre de meu avô, ali na franja da Pedra da Sereia, perto de Zé Chorão, onde a princesa encantada era prisioneira do monstro devorador dos homens que tentavam resgatá-la do feitiço sabe-se lá de quem.

Zé Chorão tinha um restaurante no sopé do Morro das Sete Cores, ao lado de uma vertente cristalina. Lembro-me dele vagamente, embora saiba que são seus filhos Cid, Célia, Cesar, Rosalina, Vilma, Dalila e Sansão, cujos nomes Rafael da Agrotec não me deixa esquecer.

Ananias partiu faz tempo. Antes do que Pirá, o mecânico que via elefantes verdes nas imediações dos pingas. Tidó viveu 92 anos, segundo soube, tanto ou mais que Ananias, que era muito idoso, embora não saiba dizer o quanto. Pirá se foi jovem, por culpa do alcoolismo.

Meus três filhos, fiz questão de apresenta-los a Tidó. Certo dia, chamaram-me à direção da escola de Cid Filho, o do meio. Os colegas – queixavam-se pais sem imaginação – tiveram pesadelos depois de ouvirem o causo do homem que encontrou o tinhoso embaixo d’água.

A história é engraçada e foi contada por Tidó a meu tio Laete. Disse-lhe que pescava a 70 quilômetros da costa com dois companheiros numa jangada. Na hora do retorno, a fateixa (espécie de âncora) estava enganchada no fundo e ele mergulhou para resolver o problema.

Quando nosso herói aproximou-se, a surpresa: quem o esperava – de rabo, chifre, barba e bigode – era o capiroto em pessoa. Ao vê-lo, o tinhoso, o coisa ruim, começou a soltar fogo pelos olhos, enquanto girava a cabeça no próprio tronco e o desafiava de tridente em riste.

Os companheiros da lida das marés não chegaram a ver o beiçudo, porque lhes faltou a coragem do amigo para conferir o fato, mas garantem que em consequência do susto, os olhos de Tidó encostaram-se um no outro e, a partir daquele momento, o cabra ficou zarolho.

Tidó é inesquecível igual a Ananias, Pirá, Zé Chorão, que nem Josefina, a inventora das garrafas de areias coloridas, personagens da Tibau de morros exuberantes, do grude e do gelé. O velho pescador foi navegar no mar da saudade. E lá vai ele na barra do horizonte.