SOL NOS CORAÇÕES

Nilo Emerenciano - Arquiteto, escritor e articulista

Estamos nos últimos dias de verão na Cidade do Sol, como de resto em todo o Brasil. O verão normalmente é um sonho para fabricantes de sorvetes, refrigerantes e bebidas alcoólicas. Os publicitários trabalham para vender tudo isso, bem como protetor solar, viagens de turismo, sandálias, a última moda em biquínis. A estação é associada ao culto hedonista do corpo, à sensualidade, a um estilo de vida frenético e a uma liberdade, em maior parte, fantasiada, o que inclui o carnaval, reminiscência dos cultos pagãos da antiguidade.

Bom também para as bandas de axé music ou duplas sertanejas, já que se multiplicam os shows e o surgimento de sucessos que vão ser tocados a toda potência dos equipamentos sonoros dos automóveis, enquanto nossos jovens requebram a última dança em voga em Salvador, imitando o que viram na TV. E toda essa efervescência continua enquanto dura o verão, que só vai acabar no dia 20 de março.

Esse ano a pandemia do covid-19 afetou diretamente as atividades de verão, a partir das festas de fim de ano e ao longo dos meses. Os que insistiram em festejar, desafiando as recomendações das organizações médicas e dos gestores públicos, se aglomerando em baladas sem o uso de máscaras ou qualquer outro tipo de prevenção protocolar, amargam agora a realidade dos hospitais lotados e a falta de vagas nas UTIs, além do elevadíssimo número de mortes diárias. Um preço muito alto que pagamos pela diversão irresponsável dos mauricinhos.

Estamos nos últimos dias de verão em Natal e felizmente há algumas pessoas para quem esse fato quase não fez diferença.

Os jovens do GACC – Grupo de Apoio à Criança com Câncer, por exemplo, continuam a sua faina cotidiana de levar àqueles garotos (que em um leito de hospital não sabem muito sobre verão) o calor de uma mão amiga. Em qualquer estação, o Lar Espírita Alvorada Nova, lá em Parnamirim, cuida de todos aqueles idosos carentes principalmente de carinho. O Lar da Vovozinha não fecha as suas portas durante o verão, com ou sem epidemia, nem seus trabalhadores voluntários se permitem tirar férias. Esses anjos da noite, anônimos que distribuem sopa pelas ruas da cidade, também não. E os Alcoólicos Anônimos. A Casa Durval Paiva. Os responsáveis pelo Projeto Acalanto, trabalhando sempre, tentando persuadir mães a não abandonarem seus filhos ou providenciando para essas crianças um lar em que encontrem afeto. E o Desafio Jovem, atuando contra o uso das drogas, pode lá parar durante o verão? Muito menos o Instituto Juvino Barreto, desde 1944 cuidando dos velhinhos e lutando com muitas dificuldades. Ou o Lar do Ancião Evangélico. Nem a Casa de Idosos Jesus Misericordioso, na Zona Norte.
E há os que se fazem presentes nas penitenciárias e hospitais.  Os que cuidam dos meninos ou meninas de rua.

Para os nossos profissionais da medicina, médicos, paramédicos, enfermeiros, maqueiros, equipes das SAMUS, todos que atuam na linha de frente na luta contra a COVID, o verão foi de trabalho intenso e de muito risco para as suas vidas.

Enfim, para uma boa parcela da população, a vida continua em sua rotina de solidariedade, indiferente ao passar das estações. Essas pessoas carregam consigo um eterno verão porque levam no coração o fulgurante sol da fraternidade, e nos olhos o brilho intenso do Amor.

NATAL/RN