Serenidade

Quando a serenidade sai por uma fresta do meu coração, a sabedoria deixa o meu corpo por inteiro.

Tal frase, não sei por que, surgiu-me na mente, quase como um raio de luz. A manhã estava chuvosa, o tempo encoberto por nuvens pesadas, e eu, com compromissos agendados, rabisquei essa sentença no meu bloco de notas e, em seguida, guardei-a. Se verdadeira ou não, pensaria acerca disto depois. Há momentos em que a palavra, caprichosa, se insurge, salta da pena, abriga-se no branco do papel, e, à revelia de nós mesmos, não quer saber de conversa, nem muito menos de opinião.

Dias depois, abro o bloco de anotações e releio-a: “Quando a serenidade sai por uma fresta do meu coração, a sabedoria deixa o meu corpo por inteiro”. Não sabia-me filósofo, brinquei comigo, serenamente.

Passei os olhos pela sala, recolhida numa quietude de mosteiro, pois todos saíram para os seus compromissos de segunda-feira. Eu fiquei, sozinho; melhor, acompanhado com a minha máxima da serenidade.

Quando dei por conta, estava a rabiscar outros apontamentos. O que transcrevo a seguir, amigo leitor, foi tudo que adveio desse momento singular. Se é coisa de valia ou esbulho imprestável, seja você o juiz. Há dias em que não somos o melhor magistrado de nós mesmos.

Quando a serenidade divorcia-se da relação, a sabedoria evade-se, abandonando o abrigo do lar bem mais ligeiro.

A serenidade é arte de poucos, culminância do espírito, moeda de difícil troco. Não pede morada aos presunçosos, é avesso a “carteiradas”, a demonstração de “alto prestígio” e de louvores, a espírito de conluio com a presunção e ao exercício pessoal do próprio (des)gosto.

Quando se está sereno, o sol pode estar alto e abrasador lá fora, pouco importa; perto da serenidade há uma sombra de oásis e veios de águas claras, frias, limpas e benfazejas.

Se o mundo ressoa ódio, o homem sereno observa, silencia e reza, sem se importar se o outro é louco, impuro, herege ou não probo.

Nos momentos mais difíceis, em que, parece-nos, só o fim se anuncia, a serenidade passa o seu manto sobre o nosso ombro e nos conduz a um novo recanto. Recanto em que o verbo tem acento de primavera, em que o rancor pede trégua e cuida de mergulhar no próprio esgoto.

Nunca acreditei naqueles que professaram a sapiência com discursos recheados de demonstrações da mais pura e incontestável sabedoria. Não, quem é sábio, para mim, é sempre aquele que sussurra que nada sabe, que apenas venera o inominável no homem, acata o que é parido do ventre indecifrável das horas, e se consola com a paz imorredoura dos séculos. Pois o tempo tudo encerra; no limiar do instante menor, aprendeu que tudo é vaidade, lição que ainda está escrita na lousa da sua memória.

A pretensão subjuga a sapiência, espanta o conhecimento e é hera que invade o jardim da veraz ventura.

Claro que considero que a serenidade completa é utopia da humanidade! No entanto, se não a almejarmos diuturnamente, se não a praticarmos cotidianamente, o que poderia se fazer presente faz-se ausente por mera omissão e falso conforto.

Levanto-me, sigo para a cozinha, sirvo-me de um café. Lá fora, os homens se inquietam nas fainas da manhã.

Ao retornar para a minha biblioteca, dou-me com o volume Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, do poeta português António Salvado. Abro-o e flagro uma estrofe do poema “Tirar a força ao medo”:

“A simpleza de gesto e pensamento,/ do coração um latejar sereno/ ritmado em harmonia e candidez…”.

Após a lição do mestre António Salvado, vate de Castelo Branco, fecho estas minhas toscas anotações. Seria a serenidade prima-irmã da poesia?

Bom, sereno e poético domingo.