REVOLTA

Companheiro Acácio entrou com a cara fechada e o semblante de quem estava para poucos, muito poucos, amigos.

Cofiou o bigode sempre bem aparado, murmurou um muxoxo de revolta e, pouco depois, sentou-se no canto mais distante do café do Rafael. Pediu o de sempre: água mineral com gás e um café expresso.

Como há meses eu não o via, cuidei de me aproximar como quem não quer nada. De início, puxei conversa com Rafael: a volta da inflação, o desmando administrativo do governo, o aumento dos impostos…

Enfim, visitei (sem me aprofundar) os diversos assuntos que a imprensa pisara e repisara nas últimas edições jornalísticas, escritas e televisionadas. Ficamos num pingue-pongue dialético, emitindo opiniões curtas, rasas e rasteiras, ancoradas no tapete “confortável” dos lugares-comuns.

Empolgado com a minha oratória rastaquera, eu levantei o tom da fala e disparei:

– Meu reino por um homem sério!

Acácio levantou-se, aproximando-se de nós. Reparei que ele ficou em compasso de espera, como se de esguelha, a prestar atenção em nós.

Com o intuito de trazer, definitivamente, o Companheiro Acácio para o centro do debate, voltei a cutucar a onça com a vara curta de Shakespeare:

– Enfim, caro Rafael, parafraseando o bardo inglês: Ser ou não ser honesto, eis a questão!

– Deixem William Shakespeare longe deste nosso lamaçal, amigos! – era Acácio, num tom de voz apropriado. Como se a água e o café houvessem limpado a revolta que colhi no seu semblante quando da sua entrada no ambiente.

Rafael me olhou, como a me perguntar: “E agora?”

Sorvi as últimas gotas de café que havia na minha xícara, mais para ganhar tempo e colher uma nesga de argumento. O resto do café frio não me ajudou em nada. Minha mente ficou ainda mais vazia e turva, como se impactada com o retorno ao debate do valoroso Companheiro.

– Não foi sempre você aquele que nos ensinou a revisitar os clássicos para bem entender a nossa sociologia humana, Acácio?! Ou não lembra mais disso?

Confesso que me surpreendi com o meu acento irônico inserido na minha admoestação. Surpreso, mantive a minha posição, deixando no ar uma sombra de interrogação por entre os lábios trêmulos.
Acácio deu dois passos em direção à porta de saída, espichando a vista através da vidraça, como se observasse a azáfama dos passantes.

– O que seria de Platão e Aristóteles, se eles voltassem a habitar entre nós? Sinceramente, amigos, eu não sei. Sinceramente, não sei. – Baixou a face, como se vítima de uma dúvida tão atroz que lhe pesava nos ombros magros.

– Não podemos desistir, Acácio. O homem é um animal político. Desta máxima de Aristóteles, eu sempre me valho.

Ele pôs os olhos e o bigode sobre mim, coçou a garganta, como se algo lhe prendesse as palavras. E, em meio a um acento de piedade e dor, asseverou-me:

– Ele, também, nos ensinou que a turbulência dos demagogos derruba os governos democráticos. E que a política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça.

– …

– Não se incomode com as reticências. Elas, nos dias de hoje, são as minhas companheiras mais leais. Corro as ruas, investigo os fatos, analiso as teses impostas, chafurdo no terreno das hipóteses postas… e nada me sobra. Melhor, sobram-me as reticências.

Neste momento, Acácio se serviu de mais um copo da água mineral. Em goles grandes, como se estivesse sedento.

O silêncio se interpôs entre nós. Silêncio pesado, incômodo e grosso. Entrou um cliente, pediu uma carteira de cigarro e saiu. Mal chegou à saída, ele tossiu, escarrou na coxia e acendeu um cigarro, tragando-o, seguidas vezes.

– O beijo, amigo, é a véspera do escarro… – Augusto dos Anjos escapou-me.

Companheiro Acácio permaneceu silente. E isto mais me incomodava. Mil vezes o debate aberto.

Pedi ajuda, com os olhos, ao Rafael, mas ele me deu as costas, fingindo arrumar as louças do café.

– Uma vida não questionada não merece ser vivida, Acácio! Bem nos ensinou Platão.

Acácio tomou o último gole d’água do seu copo, largou o dinheiro da conta sobre o balcão e caminhou para a rua.

Eu esperava, ansioso; havia em mim a certeza de um fecho de ouro do notável filósofo dos nossos tempos. Rabugento, claro, mas arguto.

– Caro amigo, você quer saber de uma coisa? – indagou-me.

– Claro! Sou todo ouvidos, companheiro Acácio.

– Que Platão, você, e todo este mundo maluco… vão à merda!

– …

Fechei a cara, larguei umas cédulas sobre a mesa (deixando o troco para a caixinha do Natal) e cuidei, furibundo, de dar logo o fora. “Meu reino por um cavalo!” Às minhas costas, o riso de escárnio e troça do pragmático Rafael.

Há dias em que o sol não nasce para a filosofia.