REDINHA DOS MEUS AMORES

NILO EMERENCIANO - Arquiteto, escritor, articulista.

Havia duas maneiras de se ir até a praia da Redinha, em busca das suas areias brancas, da vila dos pescadores e da paz que só uma vida bucólica é capaz de nos trazer.  A primeira era pela velha ponte metálica de Igapó, ali instalada desde 1916. A ponte – da qual ainda resta parte da estrutura sobre o rio Potengi, foi projetada para o tráfego ferroviário, e umas chapas metálicas permitiam a passagem de automóveis em um sentido de cada vez, sendo necessário aguardar a passagem dos veículos que vinham de lá pra cá. A passagem dos carros era acompanhada pelo barulho das chapas: trac, trac, trac. O trajeto era para nós, garotos, uma aventura que só acabava quando tínhamos os primeiros vislumbres das alvas dunas, a passagem pelo cemitério e o cruzeiro, e enfim, a visão do mercado, da igreja, do clube, das poucas casas, das redes de pesca estendidas, do trapiche e do rio e, pouco mais longe, a boca da barra.

A segunda opção, bem mais romântica, era fazer uso dos barcos que pertenciam a Luís Romão. Eram dois barcos a vela e duas lanchas a motor. Os motores das lanchas eram obviamente uma adaptação barulhenta e esfumaçada, e as pessoas sentavam em torno dessa geringonça que seguia resfolegando em direção ao trapiche do outro lado do rio. Partiam do cais da Avenida Tavares de Lira, onde ainda se viam as paredes queimadas pelo fogo da antiga loja 4.400.

Não havia energia elétrica na Redinha. Um motor a diesel funcionava até às dez da noite, piscava algumas vezes como aviso e depois apagava, deixando os retardatários entregues ao brilho do luar.  Meu pai era de rádio e no veraneio tomava a frente da difusora local. Pescadores e veranistas vinham cantar, com caderninhos contendo as letras das músicas na mão. Meu pai criou a vinheta, parodiando Catulo da Paixão: “Não há oh, gente minha, luar como esse da Redinha…”.

Geraldo Preto e dona Dalila eram as grandes figuras do lugar. Dizem que ele inventou a ginga espetada, frita no dendê e servida com tapioca que hoje é patrimônio imaterial do estado. Figuras simpáticas, generosas, sólidas. Seus filhos Geraldo e Durinho eram meus companheiros de brincadeiras. As meninas até hoje tem pontos no mercado. Eu gostava de ver o peixe que os pescadores traziam dos paquetes e era despejado no chão para ser pesado. Para isso ali, no centro do mercado havia uma grande balança.

Lembro-me de um morador chamado Paulo Tubarão, com um grande tubarão tatuado no peito. Nos domingos jogava no Clube Atlético Potiguar, (o Atlético de João Machado) e , dizem, perdia o último barco da volta tomando umas na Ribeira. O recurso era atravessar o Potengi a nado usando apenas um braço, pois o outro mantinha a roupa acima da água.

Lembro também Aderbal e Bernadão. Lutadores rivais de Vale Tudo no ringue armado no ginásio Sílvio Pedrosa. Meu pai dizia que iam para a Redinha se refugiar da fúria dos apostadores frustrados. Uma vez, curioso, fui mexer nos peixes que os pescadores traziam. Um deles me afastou ríspido. Bernadão, que eu não tinha visto às minhas costas, perguntou: “Qual o problema com o menino?” O pescador ergueu a vista e ao ver a figura robusta de Bernadão, trastejou: “Nada não, nada não. Pegue, menino, leve esses peixinhos…” Fui correndo para casa levando aqueles peixes. Comecei a aprender ali sobre o valor de um pistolão. Ou da amizade certa na hora certa.

Aos domingos era a missa na igreja dos veranistas. Chamavam assim porque era resultado da iniciativa de alguns veranistas que desejavam uma igreja maior.  Foi erguida em pedras escuras, com um grave defeito: não foi voltada para o mar, como devem ser as igrejas de comunidades pesqueiras. A antiga Capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes, erguida sobre as dunas, era modesta, porém devidamente orientada para o leste, onde o sol se levanta e de onde as jangadas retornam a casa. E por isso houve um ano, às vésperas da festa fluvial, quando a Virgem dos Navegantes deveria sair engalanada para percorrer as águas do Potengi, em que deram pela falta da imagem. Havia sumido e só veio aparecer no dia da procissão, misteriosamente, do nada, abrigada na velha capela dos seus filhos pescadores. E de lá saiu, conduzida com toda pompa pelas águas do rio, abençoando as terras da Redinha e de quebra, a cidade do Natal.

Tanto a lembrar… A lancha vermelha do prático em busca da barra e dos grandes navios que apitavam solicitando seus serviços. As ioles com os remadores do Centro Náutico e do Sport singrando ligeiras as águas. Mar adentro o quebra mar, local de nossas pescarias. Do outro lado a Fortaleza dos Reis Magos, sobranceira. Uma ponta de pedras escuras com um farol a sinalizar para as embarcações a segurança do canal. O coqueiral altivo. O cais do porto, o canto do mangue. As velas das jangadas ao longe, evocando saudades. Na Redinha cheguei a ver e me maravilhar, como Newton Navarro, danças de bumba-meu-boi e coco-de-roda.

O tempo é malvado e generoso, passando, mas deixando a poeira da recordação. Peixe frito, pirão, festa do caju, banho de mar ou de rio, pesca de siris, rede avarandada, lua cheia, a liberdade das areias, o sonho nos olhos dos garotos. A vida escorrendo como as águas do Potengi; se esvaindo como a areia branca das praias da Redinha pelas nossas mãos.

NATAL/RN