Rascunho

Rascunho. Acho que é a melhor palavra para definir o meu momento atual. O ontem  não, hoje apenas. E não conseguiria ou até mesmo tentaria escrever outra palavra ou buscar um outro modo, um jeito ou significado. E hoje, em especial, me peguei a pensar em momentos. E como é delicioso lembrar dos bons momentos. De lembranças, todas. As ruins, as boas. Instantes que, talvez, não voltam nunca. Ou talvez eu não consiga mais me recordar, porque a mente pode apodrecer. Pode cismar, pode não mais ter um som fino e sensível ou um paladar gostoso, feito mel. Como um sino badalando ao meio-dia na igreja da praça. Uma pequena igreja de arquitetura arcaica, de ladrilhos foscos e cores gastas. O que seria de nós, sem a lembrança de detalhes, e de todos os anos de nossa vida? Não é o Alzheimer apoderando de mim, não é. É medo, isto mesmo, medo de não poder mais lembrar. Medo deste medo indiscreto. Medo do escuro, não da morte. “Morte matada ou morrida”.  Medo do veneno e não da dor. Medo constante da língua muda, do rodopiar das pernas na poça, na lama. Medo do anoitecer que aponta nos meus olhos, o não enxergar das coisas todas. Estou desabrochando. Um desabrochar de flor rara, sem espinhos, sem cor definida. Pálida e abstrata. E é a tormenta mais radial que já senti. E o que me espera no fim, afinal? Um fim ou um começo, pra mim tem sido a mesma coisa. Cedo e finita. Estou finda, muito mais do que linda, e ainda sem canção terminada, sem rima no refrão. Sem notas agudas, sem agulha nova na vitrola da vovó. Rascunho. Uma parte de mim que ainda não cessa. E sinto vagamente que minhas feridas não cicatrizam depressa, sinto o cunho me moldar inteira, fico feito moeda nova, sem valor. E a parte intelectual que ainda me habita, não tem compaixão com minhas cruéis insônias, e isto me dói. Dói. E já nem posso receber tantas caridades assim, de sorrisos meigos, de abraços tortos e sem jeitos, de beijos secos. E o nó assimétrico em minha garganta pode nunca se gastar, e deste modo será meu fim, feito piano quebrado na rua. Ponho-me de bruços na escrivaninha do quarto, uma animação sem efeitos do meu corpo cansado, as mãos trêmulas e lerdas ainda tentando desenhar ícones de desamor. Basta!  Rabiscar pontos mortos em minha vida, tem sido a minha vida. Tento não usar tintas tão frescas, e grafitar nas paredes do prazer tem sido minha terapia diária. E busco rascunhos. E tenho buscado rascunhos discretos. Rascunhos mansos nas manhãs e morno ao anoitecer. Rascunhos diversos, de versos, sem dor…Rascunhos de amor.