Questão de interpretação

É tudo questão de interpretação. A assessoria do prefeito Francisco José não poupa elogios ao chefe. Considera que haver optado em desafiar a população presente à festa de Santa Luzia, mesmo sob permanente vaia durante toda sua oração, foi um gesto corajoso. O deputado Eduardo Cunha, nessa linha de interpretação, é mais corajoso ainda. Depois da busca e apreensão em suas residências e apartamentos, abriu a sessão da Câmara dos Deputados e presidiu-a sem o menor constrangimento. Quando os deputados reclamavam de sua presença e pediam sua renúncia ele fazia ouvido de mercador. A neta de Lula, indignada com o assédio da Rede Globo, publicou foto com o dedo médio estirado que pode simbolizar uma obscenidade ou simplesmente, apenas uma mão fechada com um dedo esticado. Certa vez um deputado estadual me disse que, quando vaiado, imaginava estar ouvindo aplausos e, pessoalmente, não se sentia atingido pelos insatisfeitos.

O normal é que, com o passar dos dias, o episódio diminua de intensidade em seus efeitos. Basta não comparecer a outras solenidades públicas, ao menos de forma ostensiva. E ter coragem de encarar os fatos como eles realmente são. Achar que uma vaia coletiva, do tamanho da procissão, como disse o vice-prefeito Luiz Carlos, pode ter sido comandada por uma claque é estar totalmente por fora do que acontece em Mossoró. Um sacerdote colocar em seu site que se pudesse também estaria no meio da multidão vaiando o prefeito, convenhamos, é fugir da realidade. Mas, tudo isso faz parte da política. Outros já passaram pelo mesmo constrangimento e depois recuperaram a popularidade. Quem sabe, o prefeito de Mossoró também poderá alcançar essa condição! O vereador Jório Nogueira, presidente da Câmara e aliado, sugeriu a substituição de alguns secretários do prefeito.

Em todas as notas de defesa, os situacionistas lembraram que prefeitos anteriores foram vaiados e até mesmo Rosalba Ciarlini, quando governadora, não conseguiu fugir a manifestações desse tipo. Isso realmente aconteceu e, hoje, as dificuldades enfrentadas pelo governador Robinson Faria começam a resgatar a imagem da ex-governadora. As perspectivas administrativas não são nada animadoras. O País enfrenta uma crise político-econômica sem precedentes e o Governo Federal não terá como chegar em auxílio aos governadores e prefeitos. O desgaste do governador não é maior porque vem conseguindo pagar o funcionalismo em dia, com recursos retirados da Previdência. Ao que parece, essa fonte esgotou e a voz geral é que o pagamento referente ao mês de dezembro somente será efetuado por volta de 10 de janeiro. É uma péssima notícia.

O processo de impeachment da presidente Dilma, após aprovado na Câmara dos Deputados, não teve maiores repercussões entre os eleitores. Na primeira pesquisa realizada pelo Ibope/CNI o índice de péssimo oscilou de 69% para 70% de setembro para dezembro. Os que consideram a administração ótima ou boa diminuiu de 10% para 9%. Os que defendem o afastamento da presidente sabem que é preciso motivar a população para que o processo tenha autenticidade. Por isso se utilizarão de mecanismos que levem a decisão final para março ou abril de 2016. Acreditam que o descontrole da inflação, o aumento da taxa de desemprego, a alta do custo de vida, aliados a tantos outros fatos desabonadores revelados diariamente terminarão por comprometer mais ainda a administração de Dilma Rousseff. Em outras palavras, é tudo questão de interpretação.