QUASE UM PLÁGIO ÉPICO

SÁVIO TAVARES - poeta e cronista do Assú-RN

Já adentrando à casa dos quarenta, Antonio Menelau, neto e bisneto de coronéis do sertão, não chegava a ser um rei espartano, mas era senhor de baraço e cutelo em sua sesmaria. Sendo o chamado “fim de rama”, solteiro, na idade em que seus contemporâneos já possuíam filhos adultos, aqui e acolá algum neto, permanecia imune aos encantos do amor, não sem uma ponta de tristeza, por ver-se na condição de encerrar a própria estripe.

Quem sabe Afrodite, afrontada por alguém que carregava um nome herdado da Hélade dizer-se inume aos encantos do amor, afirmar aos amigos e a mais quem quisesse ouvir que cupido nenhum nunquinha  cravaria flecha em seu peito blindado, resolveu intervir e pôr em seu caminho reto e seguro, um desvio para conduzi-lo ao reino dos bem-aventurados degustadores de paixões.

Em uma festa da padroeira local, encantou-se por Helena, florescendo na primavera dos 18 aninhos, anjo loiro, olhos agateados, riso de música e dentes de perolas, cujos modos recatados o seduziram como jamais nenhuma outra fizera. Ele abriu a couraça do peito, varreu a poeira dos desencantos dos desvãos do coração, para que a amada o encontrasse em condições de habite-se, e a ela sucumbiu, sem galhardia.

Para sua grata surpresa, a menina aceitou sua corte e, no devido tempo, instalou-se em paixão no coração empedernido. Após as bodas que fizeram história naqueles sertões, de  corpo presente entronizada  na casa onde Menelau pensava reinar absoluto e sozinho.

Mas,  como em se tratando de estórias em que deuses pagãos metem o bedelho, nada sai em conformidade  com o gosto nosso, e sim o deles, Menelau, de sisudo passou a oferecer de tempos em tempos umas soirées para alegrar sua jovem e bela esposa e também exibi-la um bocado aos tabacudos da região, que não costumavam ver mulher tão bonita.

Em uma dessas tertúlias, os amigos lhe trouxeram o sanfoneiro/violonista/cantor de nome Páris para abrilhantar uma determinada festa, e o infeliz, para não desmerecer a tradição, ao partir em tardias horas, levou consigo a bela Helena, à socapa e à revelia do Menelau, é claro.

Contradizendo o vate grego, não declarou guerra ou cercou a nova moradia da antiga amada, e sim limitou-se a roer beira de penico, morto de vergonha com o acontecido, segundo dizia aos poucos amigos que ainda recebia em sua casa, que transformou num cárcere voluntário, que a incauta, para ele, estava morta e sepultada, na vertical e de cabeça para baixo!

Passado um ano do recolhimento voluntário, um belo dia nosso herói resolveu ir à feira para tratar de assuntos inadiáveis, intransferíveis, e, fazendo todo o possível para passar despercebido dos amigos citadinos, encontrava-se entre as bancas de mangaio, justo na banca de Ciço Cornin, vendedor de arreios, cangalhas polvorinhos, berrantes e outros objetos confeccionados com mestria pelos artesãos locais, avista sua amada fugidia de braço com o menestrel de pouca lealdade e menor sustância, que também já o viram naquela situação em que não dá mais para cortar caminho! A visão lhe obliterou o bom senso e, com o perdão do trocadilho, como um touro investiu contra o rival com o primeiro objeto que conseguiu dar de garra – um berrante!

Quando a turma do aquieta-aquieta conseguiu acalmar os ânimos, e o  “Ricardo” safou-se do alcance do enfurecido, tudo poderia ter-se resolvido com mais um ou dois anos de ostracismo voluntário por parte do Menelau, se um pseudo amigo não tivesse lhe levado um  exemplar do periódico da cidade, que o fez exilar-se de vez em seus domínios, para nunca mais sair, a não ser com os pés para a frente, tal foi a verdade contida em texto de  escrevinhador do jornaleco, em manchete de primeira pagina, em sanguíneas letras garrafais: “MARIDO TRAIDO ATACA RIVAL  A CHIFRADAS”.