Quando o governo só atrapalha

Tomislav R. Femenick – Escritor, jornalista

Xerém do Riacho era um povoado com aproximadamente oitenta casas e quatrocentos habitantes. Ficava localizado num platô, à beira do pequeno e estreito Riacho Grande, nascia lá em cima da Serra do Cotovelo Torto. Na Rua Hum (escrita assim mesmo e também chamada de Rua do Comércio), ficavam a capela, as duas mercearias, a pequena farmácia (onde eram feitos pequenos curativos) e as melhores residências. Na Rua Dois, ficavam a escola de Dona Maura (que ensinava as letras, os números e a leitura), o Bar e Bilhar do Arnaldo, o Bilhar e Bar do Osório; e residências. Na Rua de Trás, ficavam a oficina de Seu Humberto (onde se consertavam carros, pás, enxadas, panelas e outras coisas) e mais residências, inclusive algumas (não muitas) casas de taipa, cobertas com palha.

O povoado nasceu há quase cinquenta anos, em função da exploração de minério de Scheelita, mineração todo ela irregular. O sujeito (e até mulheres e meninos), com uma picareta e, pronto, estava aparelhado para minerar. Quando o veio do minério acabou, tudo foi abandonado. Como os mineradores mais antigos tinham construído suas residências ali, relutaram em deixá-las para trás e começar tudo de novo. Como as terras do entorno eram devolutas, pertencentes ao governo, foram ocupando-as e cercando-as, tomaram posse e passaram a se dedicar às atividades agropastoris. Plantavam milho, feijão, arroz, batata e, na estreita faixa de terras de várzea do riacho, alho e cebola. Criavam bodes, porcos e algumas cabeças de gado. Não ganhavam muito, mas conseguiam manter-se, uns ajudando os outros.

A ligação do povoado com o resto do mundo se dava por uma estrada carroçável, que o liga à sede de dois Municípios vizinhos. A água para consumo vinha de cisternas ou cacimbões. Para banho, lavagem de roupa e louças, era tirada do rio, com as pipas de roladeiras. Como não havia rede de esgoto, todas as casas tinham fossas; não se jogavam dejetos nas águas do rio. Havia dois motores elétricos, que funcionavam de 6:30 às 9:00 horas da noite. Não eram de empresa e sim de particulares, e só atendiam algumas casas da Rua do Comércio e da Rua Dois. A oficina do seu Humberto usava um velho motor de Chevette, como fonte de eletricidade. Não havia sinal de telefone nem de TV. Sabiam do que se passava lá fora através de rádios de pilha. As geladeiras eram a querosene.

Nunca ninguém de fora se mudou para lá. Era justamente o contrário o que ocorria. Os jovens, principalmente os rapazes, quando começavam a ficar “taludinhos”, iam para cidades maiores e, dificilmente, voltavam. O lugar parecia invisível de tudo. Ninguém, nem mesmo os políticos, em época de campanha, apareciam por lá. Mas Xerém do Riacho tinha duas vantagens, duas grandes vantagens: lá ninguém pagava imposto e nem votava. Sem prefeitura e ignorado pelos governos estadual e federal, não havia cobrança de imposto. Como o povoado não estava em nenhum mapa, nenhum político o havia descoberto.

Um dia o deputado daquela região passou de avião por cima do povoado, viu aquelas construções no meio do nada e perguntou a seu secretário “o que era aquilo”. O rapaz não encontrou qualquer resposta no Google Maps, nem no mapa de papel usado pelo piloto. O chefão pirou: como em seu território havia um povoado que ele não conhecia? Falou com o governador sobre o assunto e, de pronto, foi organizada uma Comissão Emergencial de Trabalho, que tinha à sua frente o próprio deputado. Apesar da emergência, a Comissão só consegui se dirigiu ao local depois de um mês (após a festa de quinze anos da filha do deputado).

Ao chegar em Xerém do Riacho, a Comissão tomou algumas providências imediatas: multou o Bar e Bilhar do Arnaldo e o Bilhar e Bar do Osório, por funcionamento irregular; interditou os dois motores elétricos, pois seus donos não tinham licença da Eletrobrás e de outras “autoridades competentes”; fecho a escola de dona Maura, por não adotar os padrões do MEC; lacrou a Farmácia, porque não tinha autorização da Anvisa, e as duas mercearias por não terem licença nenhuma. O dono da farmácia quis protestar e foi preso por desacato às autoridades. Quando souberam que nunca tinha sido registrado crime algum em Xerém do Riacho, o Delegado de polícia e o Major da Polícia Militar mandaram soltar o preso. A notícia de sua prisão não pegaria bem para a imagem do governador.