Primeiro prefeito revolucionário de Mossoró

Em 3 de outubro de 1930 estourou no Brasil um movimento armado, liderado pelos Estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou com o golpe de Estado, o Golpe de 1930, que depôs o presidente Washington Luís em 24 de outubro, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e pôs fim à República Velha. Getúlio Vargas assumiu a chefia do “Governo Provisório” em 3 de novembro do mesmo ano, tornando-se chefe do Governo Provisório com amplos poderes. A Constituição de 1891 foi revogada e Getúlio passou a governar por decretos, nomeando interventores para todos os governos estaduais.

Em Mossoró, o nome escolhido para assumir a administração municipal foi o do cônego Amâncio Ramalho Cavalcanti, tornando-o assim o primeiro prefeito revolucionário, haja vista ter sido nomeado pelo Interventor do Estado, Irineu Jofili, para tal cargo. Mas a nomeação do cônego Amâncio não foi bem recebida no seio da ala revolucionária local, apesar de sabê-lo revolucionário, amigo do governador João Pessoa e de haver até conspirado e contribuído com o envio de armas e munição para combater os amotinados de Princesa, na Paraíba. Em consequência, a sua administração não conseguiu satisfazer plenamente as aspirações desse grupo. Passou pouco mais de dois meses no cargo, de 17 de outubro a 8 de dezembro de 1930. Não teve tempo para nenhuma ação administrativa de vulto. Ateve-se à rotina administrativa e conseguiu manter a tranquilidade pública, ainda sob os efeitos da exaltação dos partidários da Aliança Liberal, principalmente durante os dias da vitória final.

Amâncio Ramalho Cavalcanti era um sacerdote culto, educador, latinista famoso, musicista, foi diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia, onde deixou a marca inapagável de uma fecunda e brilhante administração. Foi ainda diretor do Departamento de Educação do Estado.

Era natural de Misericórdia, hoje Itaporanga, no estado da Paraíba. Nasceu a 15 de março de 1886, sendo filho de Antônio Cavalcanti de Lacerda e de dona Francisca Ramalho Cavalcanti.

Aos 13 anos de idade resolveu abraçar a carreira sacerdotal, ingressando no Seminário da Paraíba, vindo a concluir os cursos de Teologia e Filosofia em 1903. Em 13 de novembro de 1904 recebeu as ordens menores por Dom Adauto Aurélio de Miranda Henrique, na Catedral de Nossa Senhora das Neves. Em 1906 foi para o Piauí em companhia do então Bispo Dom Joaquim Antônio de Almeida. Assumiu a vice-reitoria do Seminário e foi professor e diretor do Colégio Diocesano do Piauí, recebendo o diaconato em 1908 e em 30 de maio de 1909 foi ordenado sacerdote por Dom Joaquim Antônio de Almeida.

Em 1911, Dom Joaquim foi designado para ocupar o cargo de 1º Bispo da recém-criada Diocese de Natal, trazendo em sua companhia o padre Amâncio Ramalho. Este ocupou vários cargos, principalmente ligados à educação, nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e até da Bahia.

Chegou a Mossoró em 1927, designado para ocupar a direção do Colégio Diocesano Santa Luzia, cargo em que permaneceu até 1935. Estava em Mossoró no dia do frustrado ataque de Lampião e em companhia do Padre Mota percorreu as trincheiras levando estímulo e encorajando os combatentes.

Foi transferido para a cidade de Parelhas/RN, onde foi nomeado pároco em 1938 sendo, no ano seguinte, elevado a dignidade de Monsenhor.

O cônego Amâncio Ramalho faleceu em Parelhas/RN, onde era vigário, em 22 de outubro de 1954, aos 68 anos de idade. O jornalista Rafael Negreiros destacou em sua coluna no jornal “O Mossoroense”: “Mossoró deve muito, no campo educativo, ao cônego Amâncio Ramalho, homem íntegro, de grande cultura, que embora adotando o regime da palmatória era uma figura extremamente simpática, um verdadeiro gentleman, falando pausadamente, explicando aos alunos com a maior boa vontade.”

Mossoró o homenageou emprestando o seu nome a uma rua localizada no bairro Planalto Treze de Maio, pelo Decreto nº 04/77, de 24 de março de 1977.