PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXXIX)

Diário da Quarentena VI

Clauder Arcanjo*

A música leve serenava o bulício da tarde, enquanto os homens mascavam seus remorsos na calçada.

Na sala grande, entre silêncio e provações, Marialva soltava suspiros por coisas pressentidas.

— Tenha tento, mocinha! Tire os pensamentos das danações!

— Cruz credo, vó De Lourdes. Eu estava pensando na chuva!

E os meninotes, traquinas e plenos de hormônios, esperavam Marialva descer, ao cair da tarde, para o banho na beira do rio.

 

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Selva de papel é escritório de advocacia. Santuário de papel é biblioteca.

Tal credo era rigidamente professado pelo velho Zacarias.

 

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Quando sentires a consumição do pecado, fica logo sabendo, o inferno já conta com o teu umbigo.

 

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Beata provinciana de verdade não acredita na ressureição de nenhum pecador filho de Cristo.

 

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— Dancei quando era para sentar! — exaltou-se o jovem mancebo.

Passados os anos, ao revisitar a cena, o hoje velho homem exaltou-se:

— Era para ter dançado a noite toda, sem parar.

Nenhum assento vale sequer uma dança, segundo o tribunal do tempo.

 

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“Todo pato caga mais do que canta!” — anunciava o filósofo dos botequins de Licânia, enquanto punha os olhos fundos no novo orador da província.

 

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Toda curva tem um quê de abismo. Assim como todo sonho tem uma aura de pesadelo.

 

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Músico de auditório precisa de claque contratada, e muito bem treinada. E melhor, regiamente remunerada.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.