PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXX) – Clauder Arcanjo

Foto: “Porta antiga”, de Marcelo Visentin.
@photomvisentin

Uma luz sobre as ondas da noite

 

Uma pequenina luz bruxuleante

Não na distância brilhando no extremo da estrada

Aqui no meio de nós e a multidão em volta

Une toute petite lumière

Just a little light

Una picolla, em todas as línguas do mundo.

(Jorge de Sena, em “Uma pequenina luz”)

 

A multidão grita, eu silencio. A turba reclama, aos urros, enquanto pondero e reflito.

Na noite fria, os homens se escondem, percorro as ruas com as mãos aflitas; em mim, a sensação de que muitos sofrem em condição de abandono.

Os jornais imprimem a desgraça, eu leio a luz, uma pequenina luz, pressinto-a a despontar no olhar de uma criança no extremo da estrada última.

O presente chora, eu hipoteco solidariedade à dor; no entanto, busco uma vela no quarto escuro. Amanhã, suspeito, a encontrarei.

 

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José Melindro Cruz correu fugindo da ventania e dos maus pressentimentos. Nunca se imaginou tão veloz, o querosene do medo turbinava-lhe os músculos com uma potência descomunal.

Ao se ver diante da sua casa, o portão estava trancado. A corrente grossa, o cadeado enorme. Bateu, chamou, gritou. Minutos depois, uma voz cavernosa, como se lá de longe, a lhe ordenar: “Continua correndo, Zé Melindro. A cruz da tua família te espera muitas léguas à frente”.

Melindro Cruz fez o nome do pai e percebeu que era uma questão de vida ou morte.

 

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Pista de sabido se faz sobre tijolos de preguiça, com cimento de enrolação e acabamento em cerâmica de vagabundagem.

 

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Conceição Valadares se casara tarde. Dizem que apenas para fugir da condição de moça velha. O primeiro pretendente, se é que podemos chamá-lo assim, enamorou, noivou e se casou em menos de dois meses com Ceição. Afirmam as más línguas que atraído pelo patrimônio da única herdeira do velho Coronel Euclides Valadares.

—  … até que a morte os separe!

Na lua de mel, a primeira contenda nos lençóis de seda. Resultado, um olho roxo, o braço direito na tipoia e a certeza do esposo de que o caso mereceria um revide.

Na segunda noite, fingindo agradá-la, ele cofiou seus cabelos encrespados e sussurrou-lhe, baixinho:

— … que a morte nos separe!

Encontra-se hospitalizado com traumas e hematomas por todo o corpo. Quando do boletim médico, Ceição descreveu o ocorrido. E a enfermeira de plantão registrou tudo com a tinta do humor fino: “legítima defesa”.

 

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Nervoso e abatido com a falta de inspiração, o escritor Rubens Mastronaldo resolveu reler alguns livros que se encontravam sobre a mesa, em busca de estímulo para a sua prosa. Em Guimarães Rosa, colheu: “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira”. Em Gabriel García Márquez, saboreou: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Ao revisitar Machado de Assis, sorriu com: “… Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”.

Olhou para os mestres e decidiu, falando para si próprio:

— Deixa de prosa e vai passear, Mastronaldo! O dia lá fora está tão lindo.

 

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Bastou o prenúncio de uma manhã nublada para que Dalmirdes Paixão se vestisse com uma capa de chuva e praguejasse contra o mau tempo.

À tarde, ao sair do trabalho, ouvindo a buzina de um carro distante, elevou a voz, irritado com o caótico trânsito da cidade.

Ao entrar em casa, Dalmirdes nem reparou que Dulcília o esperava banhada e com uma flor vermelha espetada no cabelo.

 

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Não gaste tanta energia reclamando da porta fechada, mas, sim, em identificar onde perderam a chave do cadeado que a tranca.

 

Tenho pensado em não pensar.

(Francisco Carvalho, em “Raiz de árvore”)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.