PÍLULAS PARA O SILÊNCIO – (PARTE CCXXIII)

Foto: “Rogai por nós”, de Marcelo Visentin.

Oração de um provinciano assustado

 

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados (…)

(Mateus 5, 3-4)

 

A terra se revirava em dores e mortes, e a ventania a varrer o mundo num misto de riso e refrigério.

Tomé Colinas resolvera rumar para as terras mais distantes e ermas. Assustado com tudo, caminhava há semanas na vigília da noite.

Certo dia, no crepúsculo, o corpo cansado e extenuado, Tomé se deparou com a pequena igreja de pedra. Quedou-se perante o anjo na escadaria e chorou, a proferir uma prece-lamento:

— Rogai por nós.

E o dia nasceu inconsequentemente belo e divinamente luminoso.

 

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Sansão Estalino não gostava de controvérsias. Sua palavra era sempre a que deveria predominar, assim ele comandava a rotina do seu pequeno sítio.

Quando Chicó Malaquias lhe pediu uma semana de descanso, antes de encararem a colheita do roçado, ele disparou:

— Falta força em você, cabra Chicó?

Chicó Malaquias coçou a cabeça, pensou e argumentou:

— A força, patrão, Deus lhe deu toda, mas de mim surrupiou.

 

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Nacíbio Mandrágora levava a vida num passe de preguiça e outro de descanso.

Certo dia, levantou-se com tanta disposição para o trabalho que o conduziram para avaliação do único médico da província.

Após análise detalhada, saiu o diagnóstico e a receita:

— O quadro é de transtorno psíquico, deve ser uma forte reação a tanto tempo de exposição à lerdeza. Para ele, canja e cama. Esse alvoroço logo passará.

Todos se entreolharam, enquanto Mandrágora esbravejava:

— Liberem-me que eu preciso de uma enxada para capinar o mundo!

 

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Fausto Ismael enfrentava duas lutas diárias. No decurso do dia, uma vontade indescritível de fazer diatribes e praticar o mal. Pela noite, sonhava em ofício de marinheiro, a singrar os mares na caça incansável de uma baleia assassina.

— Vai dormir, seu cabra besta! — reclamava a esposa.

— Chamam-me Ismael, e você me trata como um pobre-diabo.

 

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Adriano Sardinha morava no alto do morro. De lá via o movimento da cidade e julgava-a tomada pela loucura. Velozes, os carros iam e voltavam para o mesmo lugar, todos os dias. As crianças não avançavam para além da cerca do jardim. E, em alguns bairros, vários edifícios cuspiam para o céu seu hálito pestilento de fumaça e fuligem.

Quando Adriano resolveu descer de sua montanha mágica, foi recebido por uma tribo de jovens estranhos, com orelhas vazadas por brincos e peles tatuadas, que comeram-lhe no couro.

— Minha nossa! Que loucura!

Hoje, Adriano Sardinha não desce mais do alto do seu morro. Julgando-se vivo por um passe de mágica do destino.

 

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Rubião amava o café que lhe era servido pela bela serviçal ainda ao pé da cama.

— Bom dia, seu Rubinho!

— Bom dia, princesinha. Ah, meu Deus!

Quando a própria esposa lhe trouxe o café, ele, antes de servir-se, protestou:

— Está frio e com pouco doce.

— Rubião, você nem se serviu! Como pode saber?

— Ah, meu Pai! Sem reclamações. Peça a Mariazinha para trazer o meu café. E sem demora.

 

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— Eu mereço o Céu — confessou Madalena Adélia.

— Calma, minha filha. Só se chega ao Paraíso com discrição. Nada de certezas absolutas — advertiu-a o pároco de Licânia, enquanto lutava ele próprio contra os maus espíritos ao ouvir aquela voz tão delicada.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.