PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXVII) – Clauder Arcanjo

Foto “Espelho d’água”, de Marcelo Visentin.

Colóquio com Iara Maria Carvalho

 

A tarde cerzida/ na mesa,/ lascas de luz/ entre as telhas,/ apanha sem fim/ das coisas/ imemoriais.

Ando a catar esperanças nesta tarde longa, Iara, em que a chuva banha o mundo e a memória é o presente tão sofrido, tão pleno de dores e gritos.

O ar some dos pulmões dos desvalidos, enquanto fazem festa para a formiga-mito.

 

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Nunca soube se era mesmo/ imensa/ a casa da minha infância/ ou se eu era pequena demais/ para seu teto de lonjuras/ e teias de aranha.

Tudo na infância, Iara Maria, se catado pelos olhos de madureza, se eleva em assomos de gigante. Os quartos, repletos de redes de armar, detinham a lonjura do medo. Medo simples, medo puro, medo infante. De fantasmas, de almas, de morcegos.

Hoje, amiga, carrego saudades desses pavores pequenos; o medo de agora é tão grande, grande demais.

 

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Venderam o sítio,/ mas as chinelas dos/ meus avós ainda/ se arrastam por lá.

Os mercadores compram os imóveis, destroem seus telhados, derrubam as paredes, enfiam concreto nos intestinos das fundações, queimam as árvores que iluminavam de verde os arredores, espantam os pássaros, arrasam seus ninhos…

E os fantasmas, intransferíveis, não os deixam em paz. Sopram seus risos, arrastam suas chinelas, sem ligar para os compromissos do “novo” sitiante.

 

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Visitei mamãe e reparei no seu silêncio de fuga. Caminhava mais lenta, não ligava para as samambaias, nem prestava atenção nas alegrias e nos amores da tevê.

Sem a companhia de seu Zequinha, nossa Maria é viúva do mundo. Tristonha como quê.

Seus olhos/ — de tardezinha —/ são dois botões nublados.

 

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Eu tenho inveja/ dos que têm memória/ e contam a infância/ com requinte de detalhes/ que me dão água na boca.

Os cantadores da minha Licânia, para mim, me pareciam seres sobrenaturais. Desfilavam histórias na viola, a cantarem o mundo com encanto e mestria.

No ritmo dos versejadores, aprendi que Licânia era uma província e que precisava deles para aprender acerca de gregos e troianos, lusos e americanos, namoros e funerais. Na minha memória, a história se faz em cantos e nada mais.

 

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Tenho uma gaveta/ só de guardar mágoas.

Uma gaveta não me bastou, Iara Maria Carvalho, e um grande móvel tive que comprar. Nas gavetas, arrumei os soluços; no cabide, os desgostos; e, frente ao espelho, pendurei a dor de ser eu mesmo.

Tranco o quarto, poetisa, e ganho a rua.

Quero esquecer, /mas não tenho a chave.

 

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Sou um pequeno/ ponto na areia, mas minha/ lágrima é um oceano/ de sal.

Na casa vizinha, as lágrimas de uma família que perdeu a avó e não pode honrá-la com um funeral.

Que estranho enterrar alguém em silêncio.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.