sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXLVIII)

Clauder Arcanjo*

Nervos expostos ao silêncio num dia insípido

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
(Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite)

A dor presente na manhã, desde cedo: a culpa exposta no silêncio inquieto. Tentou se ocupar com algo: ofício, leitura, arte… tudo se tornava insípido ao primeiro contato dos dedos trêmulos, vã tentativa de dar norte ao que, parecia-lhe, não tinha rumo.
À tarde, resolveu caminhar. O corpo sob o sol em fúria: era verão. Que o cansaço lhe consumisse os maus pensamentos, ocupando sua mente com o esgotamento físico. Mas nada! Mesmo extenuado, sentiu-se invadido por uma náusea incomum, a amargar ainda mais o seu juízo. Qual bicho louco, rasgou a camisa suada e mergulhou no rio.
Noite. De volta para casa. Desde longe, o julgamento da vizinhança. De portas fechadas, a considerá-lo um ingrato. “Coisa de desocupado. Nada que um cabo de enxada não dê conta.”

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Novidade demais espanta o curioso. Água em demasia atrapalha o curso de um rio. Palavra em excesso enterra um discurso. Filosofia quando invade a ficção põe no texto a mácula da confusão.

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Um ladrão de Licânia garantiu:
— O roubo aqui não é mais caso de polícia. É safadeza pura, seu delegado! Prenda-me logo e me transfira para bem longe. Nunca vi ladrão não honrar o roubo de outro colega. Não, comigo não! Leve-me depressa, antes que eu enlouqueça. Sou ladrão, meliante, isso nunca neguei. Mas nesta terra, delegado, tem situações por demais misteriosas… Pergunte ao Companheiro Acácio e ao gato Nabuco. Coisas estranhas, muito estranhas. Vamos, estou pronto. Se tenho mala?! Não, os poucos pertences que eu tinha aqui perdi, e ainda fiquei devendo. Cambada de safados!

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Antes de encerrar o primeiro capítulo do seu romance de estreia, Saldanha Quintanilha já se informava quanto ao processo de indicação ao Nobel de literatura.

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Damião Pelinca diferenciava-se dos demais pela fala macia, pelos gestos contidos e pela exímia arte de não deixar rastro por onde andava.
Brandão Tanajura, líder político de Licânia, ao saber dos seus “dotes artísticos”, cuidou logo de nomeá-lo como seu secretário particular.
— Nunca fique distante dos macios, dos contidos e, em especial, daqueles que não deixam rastros. Perto deles, aprendi com o velho Mandrião, a “vida pública” se torna bem mais fácil! — exortou Tanajura.

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“Doei todo o meu patrimônio para as futuras gerações de Licânia!”; anunciou, aos quatro ventos, o benfeitor Guabirino Palmério. Não sem antes ter transferido para um paraíso fiscal tudo o que a “vida proba” lhe dera de mão beijada.

E mesmo porque os raros são perseguidos pelo povo que não tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam.
(Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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