PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXII) – Clauder Arcanjo

Cangaceiro, de Aldemir Martins.

“Na solidão, com a ajuda do cansaço, como se pode esperar, facilmente nos consideramos profetas.”

(Albert Camus, em A queda)

 

Daltísio Venerando chegou à casa do contador de causos e cutucou-o:

— Alguma novidade, seu Fabulônio?

O velho abriu a janela, pitando um cigarro de palha, e falou:

— Se abanque, Venerando, vou preparar um café fresquinho. A prosa é boa no alpendre, mas provando um donzelo.

A tarde se despedia com seu manto rubro sobre a cumeeira do Serrote da Rola. Daltísio Venerando entrou, puxou um tamborete de couro e sentou-se.

O silêncio se quebrou com o discreto tramelar das canecas de ágata e os passos cambiantes do contador de causos.

Já no alpendre, serviram-se do café donzelo. Sem mais delongas, Fabulônio meteu-se no prosear de uma história que lhe chegara das bandas do Massapê. Algo imbricado nas cordas do fantasioso, açucarado com surpresas de riso. Quase no desfecho, o temeroso e a surpresa davam as caras, fechando tudo com um suspense de fazer cabra frouxo se urinar nas calças.

Noite alta, Daltísio Venerando deu boa-noite e cuidou de, em passo ligeiro, voltar para sua fazendola. Mal entrou no quarto, pegou do papel e quis registrar o que ouvira da boca do velho Fabulônio. A coisa fervia na memória, no entanto não fluía para o papel almaço. Foi, voltou, levantou-se, sentou-se, afiou novamente a ponta do lápis e… nada. “Diachos!”

Quando Daltísio Venerando dormiu, tudo se fez vivo em sonho. Ao acordar, percebeu que não se lembrava mais de nada, mas que restara a prova daquilo no mijo na rede.

“Ô história excomungada!”

 

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— Se caíres que o chão te seja mestre!

— Como o chão me seja mestre, Cícero?

— Há os que caem e não aprendem. No entanto, existem aqueles que o cair sempre se revelou para eles o melhor professor, Platônio.

Platônio coçou a cabeça, reparou no piso forrado de pedras e concluiu: “A aula de hoje me será deveras sangrenta”.

 

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Cordélio Librário observava a vida pelos romances, julgava o futuro pelo discurso dos filósofos, acertava o rumo do caminho pelos conselhos dos autores de autoajuda. Na noite em que ele conheceu Conceição, o coração lhe mostrou que, em casos de amor, nenhum conhecimento anterior o acudiria.

 

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Aconselhado por um amigo a filiar-se ao grupo dos agnósticos, Serafim Tomás logo percebeu que um cidadão necessita da religião tanto quanto o mundo da utopia.

 

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Não se esconda no alto de uma árvore na qual o estilingue do inimigo lá o alcance.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.