PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXI) – Clauder Arcanjo

(Óleo sobre tela “La Grenouillère”, de Pierre-Auguste Renoir)

“Não tornará a olhar seu relógio, esse objeto inútil que mede falsamente um tempo concedido à vaidade humana, esses ponteiros que marcam tediosamente as longas horas inventadas para enganar o verdadeiro tempo, o tempo que corre com a velocidade insultante, mortal, que nenhum relógio pode medir.”

(Carlos Fuentes, em Aura)

 

Artemísio Valtério me ligou, a voz pastosa revelava o quanto sofria. De repente, o silêncio se interpôs entre nós.

— Artemísio?!

Nenhuma resposta. Resolvi revelar-lhe o quanto me era valiosa a sua amizade:

— Sei que a vida não tem sido fácil, Valtério. No entanto, saiba você, algumas coisas fazem com que ainda vale a pena lutar e viver. Uma delas, Artemísio Valtério, é a sua amizade: contar com a sua presença, apesar de distante fisicamente, ouvir-lhe a revolta contra os impiedosos, contra os homens de má vontade…

O silêncio mais pesou. Logo depois, do outro lado da linha, Artemísio pranteou.

 

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— Odeio a roda do tempo!

— Ele continua a sua marcha, apesar de seu asco, Temprino!

— Há que se fazer algo, Severino! Não podemos permanecer impassíveis, meras estátuas, testemunhas do escorrer das horas — argumentou.

Severino Bonaparte, então, propôs:

— Que tal quebrarmos os nossos relógios e não ligarmos mais para a marcação dos ponteiros? Não nos disseram que aquilo que os olhos não veem o coração não sente?

 

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Domina o império da tua casa, antes de te lançares ao mundo em busca da nova Terra Prometida.

 

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Torquato Guanabara levou duas primaveras construindo a canoa na qual navegaria as águas em busca da sua deusa. No verão seguinte a cabocla Danúbia Serena, ribeirinha do outro lado do rio, invadiu seu coração de certa maneira que Guanabara se esqueceu do barco e foi para os braços dela, a nado de peito.

 

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Zaqueu desceu da árvore em que esperava a novidade passar. Quando caminhava no rumo de casa, ouviu os gritos da multidão:

— Lá vem, lá vem!

Zaqueu correu a vista à procura de um ponto mais alto para subir. Nenhuma árvore, nenhuma construção, tão só a terra plana e árida. Então se aproximou de Tomé e lhe propôs:

— Deixa eu subir nos seus ombros, eu lhe descreverei tudo que os meus olhos testemunharem.

— E, assim, eu deixaria de ser Tomé.

 

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Os olhos verdes de Viridiana plantaram primavera em muitos corações áridos do sertão de Licânia. Quando o coronel João Batista soube do retorno do seu primogênito após a formatura, depressa lhe enviou um telegrama: “Perigo pt Verdes olhos Viridiana pt Melhor não pagar para ver pt”

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.