PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCVII)

(“Justitia”, de Mathias Blumenthal)

 

Eu farto-me de ter tendinites na mão porque passo o tempo

todo a consultar dicionários, sem a certeza de ser aquela a palavra

exacta. Depois desconfio do dicionário A e passo para o

dicionário B, mas não encontro no B e tenho de ir ao C.

Há cada vez menos certezas e mais hesitações e perplexidades.

                                                                                  (Mário de Carvalho — Nem um dia sem uma linha)

 

Mal o fogo começou na plantação, os provincianos acorreram aos dois doutores mais conhecedores da ciência:

— Cerquem-no a montante, com o máximo de água e determinação! — orientou o primeiro.

— Não. Circundem-no a jusante, com o máximo de água e determinação! — argumentou o segundo.

Lá fora, enquanto os dois discutiam, o fogo a devorar tudo.

Meia hora depois chegaram a um consenso: melhor seria se água e homens cercassem as labaredas pelo meio. No entanto só restavam cinzas no campo, não havia mais como demonstrar a ciência da nova teoria.

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— A quem pedes justiça, homem?

— Aos valorosos senhores dos tribunais. Estou em litígio com o meu vizinho.

O velho chamou o litigante ao canto e pediu-lhe detalhes acerca da contenda. Em seguida orientou-o:

— Por duas braças de descampado? Volta e dá de bom grado o que o vizinho te exige, filho de Deus.

— Mas, senhor, aquele pedaço de terreno é nosso, de geração em geração. Recorri aos tribunais; e tenho certeza de que a causa me é favorável.

O velho vestiu-se de silêncio e fez menção de se afastar. Nesse instante foi interrogado:

— Não estarei certo em recorrer à lei?

Ele se voltou e, quase a murmurar, expediu a sentença:

— Se doares essas duas braças ao vizinho, meu caro, ganharás a paz com o litigante. Se, como desejas, proclamarem o teu direito a esses alqueires nos tribunais, a tua descendência sofrerá eternamente por essa “justa certeza”.

Nisso o velho se afastou, enquanto o salão do júri se enchia de curiosos, ávidos por testemunharem a virulência de mais uma contenda.

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Ao sentir dúvida, Doutel calava-se e observava a natureza.

Se o sol se fizesse pleno, ele abria o guarda-chuva da precisão e sopesava cada um dos argumentos postos para, em seguida, optar pela solução mais clara.

Se, porventura, a lua antecipasse o seu reinado, Doutel cobria-se com o lençol da noite, avaliava cada um dos equívocos presentes e, logo depois, escolhia a saída mais nebulosa.

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Quando me esperavas com desejo, Adília, eu atrasava. Com a certeza de que, assim, espetaria o enxame do ciúme.

Nunca desconfiei de que, entre as abelhas do teu colo ciumento, laborasse o zangão da ira. Daquela ferroada, confesso, não suspeitava.

Hoje, ao marcar um compromisso contigo, Adília Rainha, não faço cera: antecipo sempre a minha chegada.

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— Mais dia menos dia, eu… — estagnou. Sem coragem de anunciar o que o corpo já denunciava.

Almira Divina, leal companheira, aquietou-o:

— Mais um dia, isso sim, graças a Deus. Ninguém é senhor do próprio destino, Gonçalino?

— Com este destino que Ele me presentou, Almira, é menos um. Um dia a menos a vegetar sobre meu leito.

Sem coragem de continuar, Almira interrompeu aquele diálogo, com receio de render-se aos mortais argumentos de Gonçalino.

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Cada verso custava-lhe uma lágrima. Cada estrofe, um dorido lamento. Em cada poema branco, a saudade manifestava-se.

Quando pressentiu um soneto, belamente vazado, ele largou a pena, com receio do que aquele camoniano lhe cobraria.

 

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.