domingo, 1 de fevereiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLXXIV)

                                                                                                                                                                                    Clauder Arcanjo*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(“Girassóis”, de Van Gogh)

 

Confidências à tristeza

 

A tarde vestiu-se de melancolia e veio conversar comigo. Fiz-lhe ouvidos moucos, porém ela foi insistente. Não de uma insistência ameaçadora, mas, sim, daquelas tipo “vim apenas para te fazer companhia”. E ficou. Tomou café comigo, lembrou-me dos meus familiares distantes, pôs no ar o aroma dos lábios da minha musa. E eu… me entreguei. De tal forma que ela quis dormir comigo.

Noite alta, liguei para casa e, ao ouvir o riso da minha amada, pedi licença a tão intrusa companheira e disse-lhe que ela, a partir de agora, sobrava no recinto.

A noite, então, vestiu-se de uma alegria diminuta, no entanto o necessário para salvar o sábado.

 

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No outro dia, a preguiça de encarar o domingo. Sozinho, o final de semana aperta sobremodo o cós da solidão. Ficamos como se sem jeito, exilados em terras estranhas.

Levantei-me e cuidei de inventar compromissos domésticos: lavar a louça, arrumar a cama, organizar o quarto. Cansar o corpo entretém o espírito. Ou assim se ilude, pouco importa.

Ao sair para a manhã chuvosa, um canário a trinar em uma árvore da rua deserta. Aquele trinado me consolou.

— Canta, canarinho! — festejei.

 

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No almoço, insisti em solfejar uma cantiga de outrora. Cada verso me carpia a mente, como se trouxesse à mesa o passado próximo.

Resolvi calar-me e olhar para os comensais ao lado. Acompanhado, casal e filhos. Em regra, calados. Quase que me dirigi aos presentes, insistindo (ou seria aconselhando-os?) a conversarem, a não desperdiçarem aquele momento de união familiar.

Como sempre fui tímido, nada fiz. Ou pior, retirei-me e ganhei as ruas, sem rumo. Uma chuvinha fina cobria o início da tarde, e o bairro mergulhava numa espécie de solitude solidária a mim.

— Saudade, diga a esta cidade, por favor!

 

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No início da noite, liguei a tevê e não ri dos risos apresentados. O colorido dos programas se me apresentava sem brilho e resolvi dedicar-me à leitura.

Nas palavras do escritor, reconheci-me, e a elas me entreguei. E se um homem velho e de asas longas caísse aqui? Abri a janela e fitei o asfalto. Tudo quieto e sem sinal de anjo à vista.

 

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Preparei o lanche da noite, contudo as frutas se me apresentavam amargas. A boca a rejeitar qualquer alimento.

Deitei-me, fechei os olhos e, com pouco, a lembrança dos teus olhos, dos teus lábios, da tua companhia, Biscuí, fez com que a saudade não me fosse tão… dorida. Há um certo consolo neste tipo de tristeza.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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