sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLXVI)

Clauder Arcanjo*

 

(“Retirantes”, de Raimundo Cela)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre palavras e silêncio

 

A índole e a vida me deram o gosto e o costume de conversar. A diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos.

(Machado de Assis, em Memorial de Aires)

 

Hoje não saio de casa. A preguiça e o papel me prendem neste meu canto. Sobre a escrivaninha, Machado. E ele me oferta os olhos de conselheiro. Mas, também, hoje não estou para rabugices irônicas com o Bruxo do Cosme Velho. A vida cá comigo me basta, sem metafísica e com minha dialética dor nas costas.

Segundo o Companheiro Acácio, a maior das teorias filosóficas não resiste a um instante sequer de dor pungente. O corpo nos reconduz ao prumo da vida, advirto-o, caro leitor.

 

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Ela ria pouco e mal, apesar de cercada de brilho. O esposo suportava-a; segundo as más línguas, o dote aquinhoado supria-lhe quaisquer carências de sorrisos. O cobre redimia-os, por mais tortos, malpostos e sovinas que fossem.

 

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“O choro me desarma”, revelou-me o marido traído. “Quando ela mergulhou em lágrimas, eu me rendi. Confesso”, completou.

Fitei o horizonte. Nele, não flagrei o azul de sempre, nem carregado de nuvens bojudas.

Ele aguardou-me um conselho, mas quem sou eu para ser conselheiro de um homem que chora, querendo perdoar a dama que lhe chorou novos amores?

Meti-me pela rua, abraçado com o meu silêncio de sempre. Como despedida, fiz-lhe um gesto de mão, que poderia ser traduzido a bel-prazer de quem o recebesse.

 

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Gaspar Diogo recitava pelas ruas de Licânia diariamente.

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte/ Minha singularíssima pessoa./ Que importa a mim que a bicharia roa/ Todo o meu coração, depois da morte?!

Eu me pus a sonhar o poema da hora.

Declamava tais versos, de Augusto e de Vinicius, com um gestual típico daqueles a quem o teatro da vida nunca lhes completaria.

Só parou com tal mania de vate quando um urubu pousou de vez na sua sorte, e a dama pretendida amaldiçoou-lhe o destino.

 

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Pela manhã, no rosto exasperado, a pressa. No fim do dia, na face lívida, a certeza da eternidade.

 

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Prende a pena se ela pretende voar livre: sem estro, sem timão. Destino deste tipo de escrevinhador é, quase sempre, o descanso crítico do cesto do lixo.

 

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Sentia que fazia tudo com amor. E tal sentimento lhe bastava. Quem tece com carinho aprova o tapete obtido, por mais roto que aos outros pareça.

 

Tal era a vontade do Destino. Chamo-lhe assim, para dar um nome a que a leitura antiga me acostumou, e francamente gosto dele. Tem um ar fixo e definitivo. Ao cabo, rima com divino, e poupa-me a cogitações filosóficas.

(Machado de Assis, em Memorial de Aires)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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