PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCIV) – Clauder Arcanjo

“Luzes da Cidade”, de Charlie Chaplin.

00O estudo do belo é um duelo em que o artista grita de pavor antes de cair vencido.

(Charles Baudelaire, em O spleen de Paris)

 

Belírio Fermoso acordou cedo. Precisava conceber uma página nova, ficção em que o belo surgisse em toda a sua grandeza.

Sentou-se à mesa, ajustou a posição da cadeira, colocou os óculos de leitura e, ao enfiar os olhos na página branca… nada.

Resolveu, então, ir para a saleta ao lado. Lá, Belírio abriu uma obra de Tolstói, leitura que escolhera para a semana. Páginas lidas, um riso surgiu-lhe.

Voltou depressa ao escritório e pegou da caneta. Uma construção despontou, abrindo o novo conto; mas, quando Belírio Fermoso a releu… era a cópia de um trecho do mestre de Anna Kariênina.

Revoltado, entregou-se e depôs as armas: papel e caneta. Voltaria ao combate na manhã seguinte.

 

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— Por onde você andava, Salnésio? Não me diga que estava com aqueles seus amigos intelectuais!

Apesar da provocação da companheira, Salnésio guardou silêncio, e meteu-se no quarto. Lá, trocou de roupa e resolveu refletir acerca dos comentários do fim da tarde, na Livraria Freud.

“Todo filho adoraria matar o próprio pai e, depois, transar com a mãe. Freud, se ainda estivesse entre nós, defenderia tais atos, caso o ‘criminoso’ fosse levado ao banco dos réus. Estamos falando da busca da felicidade, e todo homem a merece. Que se danem as tais convenções morais!”, asseverou o velho Tarquínio Barata, enquanto sorvia o café requentado do livreiro.

Quando tal sentença repassou na sua mente, Salnésio se lembrou de que era órfão de pai e mãe. “E quem eu irei matar, seu Freud filho de uma égua, para ser feliz?”

— Salnésio… Saia dessa rede e venha lavar os pratos, homem!

— Se, ao escolhermos a nossa companheira, a elegemos substituta de nossa mãe, logo… — murmurou.

Em seguida, Salnésio entrou na cozinha, com ares de poucos amigos.

E lavou toda a louça com uma fúria assassina.

 

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Se dormes na chuva, haverás de louvar o verão. Se caminhas na neve, haverás de venerar o calor do deserto.

Se fores casado, invejarás a liberdade da solteirice. Se solteiro, rogarás ao Céu por um matrimônio.

O homem, bicho esquisito, é servo leal da insatisfação.

 

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Naltílio desceu do cavalo, bateu a poeira do gibão e gritou:

— Ô, de casa!

— Ô, de fora!

— Tarde.

— Quem vem lá?

— Seu filho, Bastião das Carnaúbas.

— Chegou na casa errada, cabra! O único filho que eu tive sumiu porque eu era muito pobre. Antes de bater com a porta na minha cara, o sem-vergonha me disse que odiava o meu sítio, que aqui era um antro de miséria.

— Mas…

— E, agora, que estou bem de vida, você é o sétimo desgraçado que aqui se achega, dizendo ser herdeiro do Bastião. Siga seu rumo, rapaz, nem se meta a besta comigo! O rifle papo-amarelo está escutando nossa conversa, com o bucho cheinho de chumbo.

— Tarde.

— Tarde.

 

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Constâncio dobrou a esquina, entrou na outra rua, para retornar no beco mais próximo.

Em seguida, Constâncio abria a porta de casa e entrava pleno de novidades.

Fazia isso todo santo dia. Constâncio era um cidadão reconhecido pela vizinhança como um declarado inimigo da rotina.

 

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Raiolândio Tempesto, cedo da manhã, subia na cumeeira da casa e dirigia os olhos para o nascente:

— Sou guardião da chuva — autodeclarava-se.

Quando um raio o atingiu e selou os dias de Railândio, a província toda orou por sua alma; não sem antes incentivar, ainda no cemitério, a auto nomeação de outro Cristo do tempo.

 

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Quem vê ouro nas doações de um avarento é capaz de sonhar com fartura na seca mais inclemente.

 

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.