PEDIDO DE TEMPO

Um jovem casal numa manhã nublada. Tempo abafado, prenúncio de chuva.

Ele a procurar os olhos dela; ela a fugir dos olhos dele. No ar, um aspecto de conflito recente. Não só no ar: no movimento nervoso das mãos, nos lábios contritos, nas pernas com passos detidos; sem falar no estalar de dedos nervosos do rapaz.

Fingi que esperava alguém na esquina, procurei o esconderijo de uma laje com recuo na porta e agucei o ouvir. De início, a voz baixa dificultou-me o recolher, com exatidão, do diálogo. Com o argumentar, o calor da voz elevou o timbre das palavras.

– Acabou! Já lhe disse: está tudo acabado.

A voz dela saíra em tom peremptório, apesar do seu olhar dorido estar dirigido para a sarjeta da rua. Ele, a reparar se havia alguém como testemunha daquele abrupto anúncio de separação. Como todos os passantes, na lufa-lufa dos compromissos do dia a dia, não davam a mínima para eles, ele cuidou de interromper a sua companheira:

– Não deve ser bem assim, minha querida.

Quase que completei: “O amor não acaba numa manhã de segunda-feira, num calor de início de inverno, numa voz fria de geladeira. O amor dever ser findo num dia lindo, a fim de que a saudade nos seja eterna companheira.”

Ri, de mim para mim, da minha intromissão sigilosa, com uma penca de rimas pobres.

“Não se meta onde não é convidado, Clauder Arcanjo!” – cuidou de admoestar-me o meu alter ego angelical.

– Como não é bem assim!? Sim!; é assim, meu senhorzinho. E tenho dito.

Ia se levantar, pondo tudo no campo do encerrado por definitivo, quando foi contida por duas mãos suplicantes.

– Não vá. Acho que ainda tenho direito a um pedido de tempo.

– Tempo para quê?! Se você já teve todo o tempo do mundo! E o que fez com ele? Me diga, me diga! – disparou tudo com uma volúpia e uma impetuosidade tamanhas, que cuidei de me recolher, um pouco mais, no meu esconderijo. Certas indagações (que mais tinta de afirmação) põem até as testemunhas em maus lençóis.

Ele cofiou o bigodinho ralo, passou a mão na testa larga, olhou para o céu de dezembro coberto por nuvens bojudas e, como se inflamado por um fogo de paixão singular, explicou-se:

– Pedido de tempo para dizer que te amo, apesar de todos os meus erros. Tempo para anunciar ao mundo que te adoro, mesmo que meus atos, nos últimos dias, revelem o contrário de tudo o que sinto por ti, minha princesa. Pedido de tempo para…

Aquela paradinha, como um drible de um jogador habilidoso, desconcertou a defesa da namorada. Ela levantou a face, e dirigiu-lhe a primeira nesga de atenção.

– … revelar a quem quer que seja que o meu amor é costurado com os fios das minhas faltas, contudo o tecido que nos une é forte e não deve ser desperdiçado, muito menos jogado fora… Meu amor.

Desta feita, foi ele que levou a vista para o asfalto junto à calçada. Ela flagrou uma lágrima na face do companheiro. E lágrima furtiva é contra-ataque arrasador e fatal.

Ela levantou-lhe o rosto, enxugou aquela lágrima, olhou dentro dos olhos dele, e falou-lhe algo bem baixinho nos ouvidos.

Apesar de me aproximar, não saberei reportar o que ali foi dito por ela. Posso imaginar; mas não seria ético. Esta crônica não tem nada de ficção, logo não seria justo da minha parte recorrer às licenças literárias.

Quando passei frente aos dois, o pedido de tempo já havia sido selado. Com um caloroso e longo beijo, dando fé e reconhecendo firma.

E eu segui o meu caminho. Assoviando e cantando, sem me importar com o calorão daquele dia.

Bom domingo. E que o tempo lhe seja favorável.