PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Nilo Emerenciano - Arquiteto e Escritor

Há certas notícias que parecem fake de tão absurdas que são. Há dias circulou a informação que o governo federal pretendia vender o Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. A reação de setores ligados à Cultura, a Arquitetura e ao Patrimônio Histórico Brasileiro parece ter demovido o ministro Paulo Guedes da ideia infeliz.

O Palácio Capanema (1946) é o marco da arquitetura moderna no Brasil. Em seu projeto trabalharam o arquiteto francês Le Corbusier e os brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Além disso, seus jardins foram feitos por Burle Marx e Portinari assinou os azulejos da fachada.

A obra tem o respeito da comunidade internacional. Ali foram postas em prática as ideias modernistas de Corbusier. A equipe de arquitetos que tocou o projeto foi, mais tarde, responsável pela concepção e construção de Brasília, inaugurada em 1960.

É flagrante o desrespeito e absoluto descaso para com o nosso patrimônio cultural. Não há como não lembrar a destruição das imagens dos Budas de Bamiyan em 2001, levada a cabo pelo Talibã que hoje retorna ao poder no Afeganistão. O IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, responsável pela preservação dos nossos bens culturais, teve esse ano a sua menor dotação orçamentária em dez anos. Eram R$79 milhões em 2019, R$31 mi em 2020 e míseros R$9 milhões em 2021.

A Natal que amamos é extremamente ingrata tanto para com as pessoas que marcaram sua cultura como para com marcos arquitetônicos. Nem o mestre Câmara Cascudo escapa dessa amnésia. Entristece saber, através de Daliana Cascudo, que nem um centavo do poder público cai no cofre do Instituto Câmara Cascudo, memorial da nossa maior referência intelectual. A Ribeira, com as suas ruas históricas, Rua Chile, Tavares de Lyra, Dr. Barata, continua como sempre foi. Abandonada à sua própria sorte.

 

     

Fachada e vista do interior da casa do sr. Kalil Faraj

 

Ali na esquina das avenidas Trairi com a Campos Sales, bairro do Tirol, se erguia até 1959, a Vila Barros, pertencente ao Cel. Genivaldo Cândido da Silva. A edificação por si só, era um belo exemplar de arquitetura eclética. O imóvel foi comprado e demolido pelo empresário Kalil Aby Faraj, que em seu lugar construiu e inaugurou, em 1962, talvez primeiro exemplar de arquitetura modernista em Natal. O responsável pelo projeto e execução da residência foi o Engenheiro Munir Abi Faraj.

O Sr. Kalil era um homem de ideias progressistas e antenado com os avanços da arquitetura. Isso possibilitou ao autor do projeto aplicar conceitos inovadores tais como as formas geométricas simples, despojamento, planta livre, uso do concreto armado, azulejos decorando a fachada, janelas em fita, cobogós.  O painel da fachada fazia referência às origens do proprietário, imigrante libanês, dono de rica biografia, inclusive encontro com cangaceiros em suas viagens pelo interior do nordeste.

A casa, enfim, foi demolida em 2006 e no local existe uma das centenas de farmácias que ocupam as esquinas da cidade.

Resta-nos lamentar. A ponte metálica de Igapó demolida pela metade é símbolo do nosso desapreço pela história.  Quem conheceu a Praça Pedro Velho deve lembrar os espelhos d’água, a fonte luminosa, os belos jardins. A Praça André de Albuquerque abrigava a Galeria de Arte Popular e a Concha Acústica, com biblioteca e espaço para apresentações populares. Ali na Concha Acústica eu vi grupos folclóricos, estimulados pela administração progressista do prefeito Djalma Maranhão. Vi também Cauby e Ângela Maria. E li Monteiro Lobato na biblioteca do térreo. Na fachada da Galeria de Arte o painel em azulejos de Newton Navarro foi-se quando tudo foi demolido.

Ainda estudando arquitetura fiz para a Fundação José Augusto, junto com colegas, o levantamento das belas fachadas da av. Tavares Lyra, um trabalho minucioso usando os recursos da época. O que foi feito de tudo isso? A Ribeira é história na veia. Terra dos canguleiros.  Aquelas ruas estreitas abrigaram jornais, livrarias, o Café Cova da Onça, a Peixada Potengi, a Agência Pernambucana, bordéis. Receberam políticos, poetas, jornalistas, artistas e figuras inesquecíveis. O Teatro, a Confeitaria Delícia, o Grande Hotel, à espera de quem conte a sua história. Além de ter sido a porta para a Redinha, lá “do outro lado do rio, entre os morros”. A Ribeira reclama uma ação urgente, de restauração e revitalização. Não apenas reclama: grita por socorro.

É uma verdade repetida: sem um olhar respeitoso ao passado não há presente nem futuro possível.

NATAL/RN

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