Para chamarmos de nosso; 3 exemplos

Tomislav R. Femenick – Jornalista

Uma das coisas que sempre me intrigou foi o fato de não termos um Prêmio Nobel para chamarmos de nosso. Dois brasileiros foram indicados: Carlos Chagas, em 1921, para Medicina, e Dom Helder Câmara, em 1971, para o Prêmio da Paz. Mas não levaram. Na América Latina oito países foram laureados: Argentina, com cinco; México, com três; Chile e Guatemala, com dois cada um, e Colômbia, Costa Rica e Venezuela, com um cada. Quer dizer que, no pedestal dos sábios, não há nenhuma figura para chamarmos de nossa; pelo menos no Panteão do reconhecimento.

A pandemia da Covid 19 evidenciou um outro aspecto em desfavor do Brasil. Quase todos os países em desenvolvimento produziram vacinas contra o coronavírus. O Brasil é dependente da importação de imunizantes desses países. E por quê? Porque preferimos importar a fazer aqui. Voltemos à vacina para entendermos melhor: ao importarmos a dita-cuja pronta ou a tecnologia de como fazer aquele determinado imunizante (desenvolvido em outro país), ficamos presos “ao que se faz lá fora”. Isso é ruim? Sim, se for a única opção. No caso das vacinas e da indústria farmacêutica em geral, uma parte importante dos seus componentes é produzida pela indústria de “química fina”, atividade industrial voltada para obtenção de produtos de altíssimo valor agregado (diferença entre o valor de custo e valor de venda das mercadorias e serviços). Quanto maior a diferença, maior o valor agregado.

Aqui o problema se divide em dois. Primeiro temos a fase de produção das substâncias ativas dos medicamentos (vacinas, incluídas). Nesse estágio a margem de lucro (preço de venda menos custo) é menor. Na fase seguinte, quando se produz o medicamento propriamente dito, o valor agregado é maior, mais compensador. Resultado: o Brasil importa aproximadamente 90% dos insumos ativos do setor farmacêutico, isso porque o produto importado é mais barato que o produto nacional, em função da alta incidência de impostos que se repetem em toda a cadeia produtiva nacional. Resultado: Rússia, Índia e China saem na frente e nós não temos uma vacina para chamarmos de nossa.

Pelos dados disponíveis, contatamos que, em 2019, o Brasil era o sexto maior produtor de automóveis do mundo, subindo duas posições desde 2010. No ano passado, não sei em que posição ficou, pois os números são contraditórios e alguns deles ainda estão sendo levantados e/ou corrigidos. As maiores montadoras do mundo têm fábricas por aqui. As marcas europeias, asiáticas e norte-americanas veem em nosso país um grande mercado. Produzem aqui, porque aqui existe um enorme mercado consumidor.

O ponto fora da curva foi a Ford que, depois de um século presente em nosso território, abandonou tudo e foi embora. No entanto, o problema da Ford não é coisa do Brasil. Retirou-se também da Austrália e enxuga suas linhas de produção em quase todas as suas fábricas.

Alguns empresários brasileiros se lançaram nesse mercado tão competitivo. Além das marcas Puma e Miura, famosas, porém nanicas, tivemos a Gurgel. Foi um sonho amador do engenheiro João Amaral Gurgel. Veículos feios, sem adoção de inovações já existentes nos seus competidores e, principalmente, sem visão empresarial, “os carros do seu Gurgel” deram chabu quase que ainda na linha de largada, após tentar montar sua unidade produtora no Ceará. Pena, pois poderia ter sido uma iniciativa vencedora. Caso à parte foi o exótico Romi-Isetta, o primeiro carro fabricado em série no Brasil, fruto de uma parceria entre a empresa italiana Iso com a brasileira Romi. Só tintam dois lugares e a porta se abria para a frente do veículo. Seu apelo não visava atender às necessidades de conforto, segurança e praticidade. Deu no que deu. E nós brasileiros continuamos sem ter uma montadora, uma marca automotiva, para chamarmos de nossa.

A síntese da história é essa. Temos sonhadores e aventureiros, mas falta-nos quem queira fazer deste um país do presente. Para coroar tudo isso, sobram-nos governos erráticos, que corrompem ou desconsideram as universidades e preferem o caminho mais fácil: comprar em vez de produzir.