Pantomima, conto ou história para enganar

É possível que o Brasil seja um país diferente. O presidente da República e os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados estão sendo investigados por denúncias relacionadas a improbidades administrativas, mas continuam em seus postos, como se nada acontecesse. Correm notícias de entendimento entre esses dirigentes que, antes, trocavam acusações públicas. O jornal Folha de S.Paulo publicou declarações do comandante do Exército, General Eduardo Villas Bôas, afirmando que “estamos vivendo situação extremamente difícil que poderá se transformar numa crise social com efeitos negativos sobre a estabilidade. E aí nos preocupamos, porque passa a nos dizer respeito diretamente. Diferente de anos anteriores, essas palavras não tiveram eco, pois ainda está na memória do brasileiro o que representou o regime militar em seu último período de governo.

O presidente da Unasul, entidade formada por Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela, desautorizou seu secretário-geral que ameaçou expulsar o Brasil dessa União de Nações, caso o Congresso decida pelo impeachment de Dilma Rousseff sem que haja uma “causa criminal”. Em relação ao senador Renan Calheiros e ao deputado Eduardo Cunha, não existem interferências externas, salvo documentos encaminhados pelo Ministério Público da Suíça sobre a movimentação de contas bancárias naquele país pelo presidente da Câmara e seus familiares. Em resumo, a presidente Dilma ocupa parte do tempo gerenciando e tentando negociar com o Legislativo o arquivamento dos pedidos de impeachment que forem encaminhados e Renan e Cunha se defendem nas investigações autorizadas pelo STF.

Não se pode dizer que o país parou, na estrita acepção da palavra, mas os efeitos negativos são detectados claramente. Há cerca de um mês que a presidente reúne seus ministros para discutir o tratamento político com os congressistas. Na Câmara e no Senado as sessões estão prejudicadas e não se fala em outro assunto afora a crise política. O ex-presidente Lula critica abertamente a presidente Dilma e pede a cabeça de ministros, sobretudo o da Fazenda, Joaquim Levy. Extremamente técnico, Levy defende medidas que se chocam com o programa defendido pelo governo do PT. Em um pequeno exemplo, Dilma suspendeu o corte de 3 mil cargos comissionados, anunciados como parte do esforço para diminuir as despesas.Para se ter uma ideia do clima. Cunha declarou que, se for bem tratado, pode ser que tenha boa vontade com o governo.

Como a crise é nacional, atinge diretamente os estados e municípios. O governador Robinson Faria encaminhou pacote de medidas à Assembleia Legislativa, aumentando impostos e relacionando medidas para conter despesas. De início, teve de enfrentar reações, mas terminou conseguindo a aprovação dos deputados. Em Mossoró, o prefeito Francisco José Jr. também convocou a imprensa para anunciar um grande pacote para enfrentar a crise. O primeiro julgamento das reformas do prefeito foi do vereador Francisco Carlos, do PV, partido que faz parte da administração municipal. Durante anos ocupando importantes secretarias no governo Fafá Rosado, onde era considerado o super-secretário, o vereador resumiu sua opinião sobre a referida reforma em uma única frase: “a reforma do prefeito de Mossoró não passa de uma pantomima”.