PANDEMIAS

Geraldo Maia do Nascimento - [email protected]

Esta é a palavra do momento. Qualquer noticiário que se assiste o tema principal é a Pandemia que assola o mundo, principalmente o Brasil, que registrou nessa semana mais de 3.000 mortes por Covit-19 em apenas 24 horas. O tema é assustador, mas devemos lembrar que no passado outras Pandemias atingiram a nossa cidade, também com muitas perdas humanas, mas que foram debeladas, embora sem os conhecimentos científicos que temos agora, portanto devemos confiar que em breve, com as medidas que estão sendo tomadas, tudo possa voltar ao normal.

Há uma frase do escritor Coelho Neto que diz: “Os que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-los! ” Queremos, portanto, lembrar outras Pandemias que nos atingiram e como foram debeladas, apenas para seguir essa máxima.

Em 1856 a Província do Rio Grande foi visitada pelo Cólera Morbus, uma doença bacteriana que causa diarreia grave e desidratação, normalmente transmitida pela água e que é fatal se não for tratada imediatamente. O Presidente da Província, Antônio Bernardo de Passos, em seu relatório emitido em 10 de julho de 1856 registrava:

28“Hoje a ninguém é desconhecido na província o seu mau estado de salubridade: muitos viram finarem-se entes a quem mais presavam do que a própria vida, e todos têm ainda o coração sobressaltado pelo futuro, que fúnebre ameaça cidades, vilas e outros lugares mais ou menos povoados. Logo que apareceu a notícia de reinar o cólera no Pará de modo a dar-se- lhe crédito, cuidei de tomar providências necessárias, afim de evitar a invasão do mal na província; foi assim que por ofícios de 12 e 16 de agosto do ano passado, ordenei ao comandante da fortaleza e ao patrão-mor da barra que os vapores e mais navios procedentes do Pará fossem detidos no lugar das quarentenas: providências iguais foram dadas para outros pontos da província acerca dos navios provenientes de outros portos, no passo que me chegava ao conhecimento ter neles aparecido a epidemia; de sorte que quando o cólera chegou a Pernambuco expedi ordem nesse sentido a todas às autoridades policiais beira-mar, mandando destacamentos conforme me habilitava a já diminuta força pública para serviço ordinário e diminutíssima para este extraordinário.

A epidemia ameaçava a província, e ela estava muito mal preparada para lhe neutralizar a mortífera ação; porquanto só tinha um médico do partido das comarcas do Sertão, que lhe faltou, quando mais dele precisava; não possuía um só asilo de caridade, salvo a enfermaria militar, e apenas havia uma botica. “

Apesar de suas precauções, a epidemia chegou e pegou a província sem condição de combate-la. Estatísticas da época indicam que morreram 2.563 pessoas, mas segundo informou em seu relatório, a cifra não estava completa, podendo o número ser bem maior, devido à dificuldade de comunicação da época.

Um único médico e uma botica (farmácia), era todo o socorro com que contava a província. O presidente informava ainda, em seu relatório, que mandou ofício para várias outras províncias, tais como Paraíba, Ceará, Bahia e até Rio de Janeiro, pedindo socorro médico, mas sem nenhum resultado. Todas essas regiões estavam sofrendo com a peste que se alastrou pelo Brasil.

O historiador Raimundo Nonato, na sua História Social da Abolição em Mossoró, informa que:

“O Dr. Luís Carlos Lins Wanderley, como médico de uma comissão para atender aos doentes, cujo número crescia, esteve em Mossoró, a fim de ajudar o Dr. Henrique Câmara, sendo hospede da viúva de Irineu Sóter Caio Wanderley, Ana Hermelinda dos Santos Goará Wanderley. Foi intensa a sua atividade para livrar a cidade de maior propagação do surto epidêmico. Fez então uma promessa: se Mossoró não fosse atingida ainda mais pela calamidade, mandaria rezar uma missa no patamar da Igreja de Santa Luzia para ser assistida por todos os mossoroenses. E assim aconteceu. A praça se encheu de povo e o vigário Antônio Joaquim oficiou o santo sacrifício da missa. O Dr. Luís Carlos, na ocasião, fez uma brilhante oração agradecendo a Deus por ter livrado Mossoró de maior número de mortos”.

A fé falou mais alto do que seus conhecimentos médicos. Mas foi grande a sua luta para evitar na cidade a propagação da peste, o que de certo modo conseguiu. O número de mortos no município foi relativamente pequeno (75 mortos), comparado com outras regiões.

O cólera morbus foi considerado a primeira doença globalizada. Existe, sob a forma endêmica desde as mais remotas épocas, nas planícies dos Rio Ganges e Bramaputra, na parte oriental da Índia e Brangadesh. A partir destas zonas endêmicas, o bacilo tem se propagado a várias regiões do globo, causando epidemias e pandemias de gravidade variável.

Até 1856, quatro pandemias haviam surgido: A primeira, que foi de 1817 a 1823, que se estendeu do vale do Rio Ganges a outras regiões da Ásia e África. Na segunda, que foi de 1826 a 1837, a disseminação do cólera acompanhou as rotas do comércio, atingindo, além da Ásia e África, a Europa, América do Norte e América do Sul. Mas foi durante a terceira pandemia que o cólera chegou ao Brasil, em 1855. E a primeira localidade atingida foi a província do Grão-Pará (Estado do Pará), que recebeu o navio “Defensor”, vindo de Portugal, com 12,8% da tripulação morta em consequência de diarreia e desidratação. Depois atingiu outros estados da região Norte, Nordeste, Sul e Sudeste. Até 1867 tinham sido registrados no Brasil, aproximadamente 200.000 óbitos.

Foi, portanto, o Dr. Henrique Câmara, o primeiro médico a visitar Mossoró durante o ano de 1878. No ano seguinte chegou o Dr. Luís Carlos Lins Wanderley, como médico em comissão para atender aos doentes, cujo número crescia constantemente.

Nos próximos artigos falaremos de outras Pandemias que nos atingiram no passado. Se você quer conhecer mais sobre a História de Mossoró, visite o “blogdogemaia.com” ou o meu canal no YouTube “Na História com Geraldo Maia”.