PADRE SÁTIRO

Ele nos procurou. Melhor, intimou-nos. “Quero que cuidem de tudo!”

O primeiro contato foi com David Leite, que, junto comigo, toca a editora Sarau das Letras. Gosto do verbo “tocar”. Apesar de todo o seu facho de improviso é o que melhor expressa o nosso ofício de gerenciadores da Sarau. “Tocar” no sentido de coesão musical, de lirismo orquestrado. Assim, penso, se sentem aqueles que abraçam o mister de publicar obras.
David logo me ligou, avisando do desafio: “Padre Sátiro Cavalcanti Dantas quer publicar pela nossa editora.” Misto de contentamento e medo me invadiu o juízo; contente pelo fato de sermos a casa a editar uma obra do eterno pároco da São Vicente, e medo pelo supremo desafio de orquestrarmos uma edição, em livro, de um dos mais preparados párocos deste chão potiguar.
A cabeça ficou a ver estrelas e, em algumas horas, a recear que uma delas se abatesse sobre o meu incréu cocuruto. Como a nossa casa de livros, caro leitor, nasceu, há dez anos, sob a égide da utopia, espantamos o medo e agarramo-nos com o anjo do contentamento.
“Que bom, David! Não haveria presente melhor para os dez anos da Sarau: editarmos Padre Sátiro!”
Ao retornar a Mossoró, marquei um encontro com Sátiro no Colégio Diocesano Santa Luzia.
Entrei em seu escritório e pedi-lhe a bênção; ele levantou o rosto que se encontrava mergulhado sobre a nova encíclica papal. De imediato, anunciou-me a boa nova: “Aqui está. Confio em vocês. Façam a seleção, a revisão. Escolham o título, a gráfica… Enfim, só quero vê-lo quando pronto.” Dois calhamaços sobre a sóbria escrivaninha. Folheei-os com vagar: eram dois anos do programa “Reflexão”, veiculado, nos finais de tarde, na FM Educativa Santa Clara. Agora, transcritos para o papel.
“Deus o abençoe, e vá que eu tenho pressa!”
Saí feliz e zonzo. Ao entrar em casa, outra ligação para o David Leite. De pronto, montamos um plano de trabalho: digitação com Phillipe Villeneuve; fotografia de Allan Phablo; seleção dos textos, a cargo do Padre Crisanto Borges; a revisão, sob a batuta do mestre José Nicodemos; a diagramação e a arte gráfica, com o mago Augusto Paiva; impressão, com a Offset Gráfica, sob o comando de Ivan Júnior.
Os meses passavam. Diria, corriam, mas fujo do lugar comum. “Que tal lançarmos no aniversário da minha ordenação sacerdotal: 8 de dezembro?”
Ai, Jesus! Novembro já fuçava o nosso cangote.
Contudo, juntamos forças e energia… e a obra se fez carne. Ou, as reflexões se fizeram páginas eternas.
No prefácio, David Leite bem explica: “Se fosse para definir Padre Sátiro em uma única palavra, diríamos: multifacetado. Educador, comunicador, idealizador do Mosteiro de Santa Clara, longevo capelão da São Vicente, estudioso da obra de Santo Agostinho. Homem de fé e oração. Multiplicador de talentos, para lembrarmos uma parábola bíblica. Seis décadas de meritória e marcante atuação presbiterial na comunidade mossoroense.”
Em texto para as orelhas, o organizador e selecionador, o padre Francisco Crisanto Borges de Araújo esclarece: “No decorrer desta viagem, o leitor vai encontrar outras facetas do Pe. Sátiro Cavalcanti Dantas: um padre diocesano de pobreza franciscana, de sabedoria agostiniana, com uma paciência e uma capacidade de contemplação e de solidão quase beneditina ou trapista, de um ardor missionário inaciano, de uma caridade vicentina e de uma espiritualidade genuinamente evangélica.”
Na festa de lançamento, na noite do dia 8 de dezembro de 2015, a aura de dever cumprido recaiu sobre nós todos. Sim, sobre todos nós, pois toda a comunidade cristã se fez partícipe na construção de mais uma obra do incansável pároco: Reflexões – Programas da FM Educativa Santa Clara (Sarau das Letras, 2015).
“Com efeito, não é a carne o princípio, nem o é a alma do homem, mas o Verbo criador de todas as coisas. Logo, a carne não purifica por si mesma, mas pelo Verbo, que a tomou quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós” – anuncia Santo Agostinho, em A cidade de Deus.
Fico por aqui, meus irmãos e irmãs, pois é hora de (re)ler Reflexões.
Um ótimo e reflexivo domingo. Assim seja.