Ouvindo duas mulheres e seus tristes passados

*Gutenberg Costa

Como seria o nosso encontro com um amigo ou amiga depois de uma certa idade, com décadas de espaço de tempo. Relembrar as alegrias ou sangrar as feridas antigas que ainda estivessem abertas? Perdoar alguém que do nosso meio nos apedrejou de propósito? Lamentar o que não foi feito? Ou invejar quem chegou ao hoje melhor do que nós?

Nunca me atrevi a escrever contos. Nada de ficção ainda. Tudo que escrevo me aconteceu ou me contaram. Tudo realidade. Os contos ficaram para gênios, como Clarice Lispector, Fernando Sabino, Jorge Luís Borges ou mesmo meu fraterno amigo papa jerimum, Nilo Emerenciano. Embora, às vezes, uma pequena parcela, de meus poucos leitores me perguntem, se o que eu estou contando a eles é verdade ou não. Minha filha Sarah, muito curiosa, quando criança, lia as minhas histórias por trás do meu velho computador e também sempre duvidava que o viajado pai tivesse vivido tal situação.

Mas, o que hoje vou contar-lhes realmente aconteceu. Juro que eu ouvi e anotei. Esse fato ocorreu mesmo sem eu provocar ou querer, em uma tarde de sol escaldante em um bar restaurante do bairro do Alecrim, há alguns anos. E estava rascunhado à minha maneira, na minha velha agenda de 2018, agora recolhida para repassar-lhes. E vale aqui salientar que minhas agendas só eram lidas por mim e com muita calma, para decifrar meus garranchos. Eram iguais a feira de Caruaru, tão visitada por mim. Tinham de tudo.

Mas, vamos lá a historinha deste dia. Cheguei no dito restaurante e pedi ao garçom uma cerveja, bem gelada, para contrariar um pouco meu cardiologista, doutor Rafael Negreiros. Coloquei na mesa a boina, os óculos escuros. A agenda e um livro, que sempre os levo até para as praias. Vou apenas negar-lhes o dia e mês, como também o nome do bar/restaurante visitado. As duas referidas mulheres, sentadas em outra mesa, ao lado. E eu nunca as tinham visto antes. Nem deu para ouvir seus nomes. Aparentavam mais de sessenta anos e terem vividos grandes amores e paixões no passado. Aventuras e desventuras. E como diria o grandioso Vinicius de Morais, muitos desencontros também, nessa arte da vida.

A mais falante e agitada era a de cabelos pintados para se tornarem escuros. Um pouco baixinha e não tão magra. De brincos com grandes argolas nas orelhas. Bem maquiada e com batom muito vermelho nus lábios. No meu tempo podia ser chamado até de encarnado. A minha cor adversária do pastoril. Já a mais calma, de cabelos curtos, mais alta e mais forte do que a velha amiga. estava com mechas brancas nos cabelos, simples, com rugas e sem maquiagem alguma era a mais triste com a vida passada e presente.

Elas estavam tomando cervejas, iam já na terceira e chegaram bem antes de mim. E eu com todo o cuidado para anotar aquela conversa, sem ser notado por elas, tal qual um espião teria feito contra os nazistas, na segunda guerra mundial. Um dado momento, ouvi que elas teriam sido colegas em um cabaré do bairro da nossa boemia Ribeira. Tempos sofridos, segundo as mesmas: “Fulana se deu bem, saiu de lá e casou-se com aquele doutor. Sicrana foi para outro Estado e também se casou com um homem muito rico. Soube que ela vive hoje numa mansão ao lado dos filhos e netos, depois da viuvez. Beltrana, ali teve sorte, nasceu em lua cheia parece, mora na Itália, depois que arranjou um italiano rico…”. E a mais triste disparou ainda baixinho: “Eu mulher, nasci sem sorte, como dizem aonde moro, cagada, só pode!”

Também ouvi histórias tristes de algumas colegas dessas duas mulheres: “Fulana, coitada, que Deus a tenha, ensopou o vestido de gasolina e riscou fósforo aceso. Beltrana, caiu na desgraça do álcool até o fim da vida. Sicrana, muito pior, nas drogas. Até para se enterrar foi preciso a caridade alheia…”. A vida é assim mesmo, quem chega depois dos sessenta tem muito o que contar de bom e triste.

E as duas mulheres, continuaram o rosário de desabafos durante aquele marcado e esperado encontro. Foram grandes amigas na mocidade e agora, já um pouco idosas, iriam recomeçar a amizade que o tempo manteve afastada. O tempo é como o diabo, são sempre coitados! Elas riam e choravam ao mesmo tempo, sempre desconfiadas com minhas anotações. Até olhavam sorrateiramente de vez em quando a minha velha aliança de prata no dedo esquerdo!

Pelo que eu ouvia, tirava as minhas conclusões. A de cabelo comprido teria casado com um homem mais velho, com uma boa situação financeira. Do relacionamento, nascera uma filha, estudiosa e educadíssima. Excelente filha. Ficara viúva recentemente, com casa confortável e uma pensão mensal do finado marido militar. Nunca o teria escondido a sua vida sofrida de sobrevivente de cabaré e, em nome do amor, este a teria perdoado e dado- lhe uma boa vida de mulher respeitosa e casada. Sua filha muito jovem e feliz, estava no primeiro ano na faculdade de medicina. Ia ser uma médica renomada em breve futuro. Sorria e dizia a amiga sempre: “Graças a Deus e ao homem que encontrei já com meus quarenta anos, eu tive felicidade até hoje. Superou todo o sofrido passado naqueles cabarés miseráveis…”.

Já a outra amiga, chorava de vez em quando. Não tivera a mesma sorte da outra. Não casara com ninguém. Vivia de favores na casa de uma prima e, diga-se, passando humilhações. Fazia-se de empregada doméstica para ter dormida e comida dignamente. Sem filhos e sem amizades para ouvir seus desabafos e as agruras vividas até hoje.

Nisso pediram um tira-gosto e a quarta cerveja. Não fumaram, simplesmente porque o ambiente não permitia. A mais endinheirada assegurou o pagamento das despesas ali feitas. E prometera, a partir daquele encontro, cuidar da velha amiga como uma irmã a levando para morar com ela. A casa era grande de sua herança e até empregados tinha. O saudoso marido até carro teria dado de presente para a filha, no mesmo dia da aprovação no vestibular de medicina. Um santo homem, diferentemente daqueles ingratos e violentos que elas conheceram nos cabarés passados: “Mulher, agora sua vida vai mudar. Deus me deu e eu vou morrer ajudando a quem precisa mais do que eu. Mortalha não tem bolso e caixão gaveta. Você era uma sofredora até ontem. Vamos cuidar uma da outra na velhice. E, de vez em quando, tomar umas cervejinhas, que ninguém é de ferro não!”

Juro que quase bato estridentes e efusivas palmas diante daquele final tão feliz, prova de uma verdadeira amizade, nesse mundo sem solidariedade nenhuma. Anos não se viam e agora, unidas em uma irmandade cristã, a qual causa inveja aos vivos que acham que já estarão encaminhados diretinho ao céu. Até o Pelé, imaginem meus leitores, já garantiu jogo de bola no céu para ele…

Aquele foi um santo encontro que presenciei em minha vida. Não foi ocorrido num templo religioso, mas, em um bar de terceira categoria, como diriam os exigentes, e com certeza naquela tarde, teria enchido o paraíso celestial de alegria. Quando se fala em caridade sem interesses e amizades sinceras, é de se pensar que são coisas divinamente inventadas por La Fontaine ou Esopo. Ou uma criativa crônica de Rubem Braga. Um belo conto de Newton Navarro. Os olhos romanceados da Capitu, de Machado de Assis. Uma lenda cooptada por Câmara Cascudo, em Extremoz. Ou mesmo quem sabe, uma peça magnífica de Nelson Rodrigues, sobre noivas e tragédias. Sei que alguém agora, vai me apelidar de ‘contista’, depois dessa história…

Bem, paguei minha despesa e saí apressado para meus compromissos e elas lá ficaram já na quinta garrafa. Sorrindo muito com o novo viver e mutualmente prometendo fidelidade na amizade para o resto da vida delas. E não fui eu, mas o santo da boemia Vinicius de Morais, que nos disse que em leiteria não teria feito amizades. Pena, eu não ter feito amizade com essas duas mulheres! Ah, me envolvi tanto emocionalmente com as conversas das duas amigas que ia esquecendo que também anotara que elas apenas acreditavam em Deus, mas não frequentavam nenhuma Igreja ou religião! E quem sabe se o Deus delas, não estaria muito feliz com isso? E, por hoje, basta!

 

Morada São Saruê/Nísia Floresta-RN.

 

* Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Folclorista e Escritor