Os “Pedreiros Livres” de Mossoró

“Pedreiros Livres” é o nome pelo qual são conhecidos os membros da Maçonaria. O nome vem do francês maçon, que quer dizer pedreiro. A organização surgiu na Idade Média, época de grandes construções em pedra, como castelos e catedrais, a partir de uma espécie de embrião dos sindicatos. Após o final da Idade Média, a maçonaria passou a admitir outros membros, além de pedreiros. Transformou-se, assim, em uma fraternidade dedicada à liberdade de pensamento e expressão, religiosa ou política.

A Maçonaria é, na verdade, uma sociedade discreta, em que as ações são reservadas apenas àqueles que dela participam. É uma sociedade universal, cujos membros cultivam o aclassismo, humanismo, os princípios da liberdade, democracia, igualdade, fraternidade e aperfeiçoamento intelectual.

A primeira Loja Maçônica de Mossoró foi instalada em 1873 por sete maçons regulares com residência fixa em Mossoró, iniciados em outras cidades. Escolheram a data de 24 de junho, dia do Padroeiro da Maçonaria, São João Batista, para a Primeira Sessão, sendo essa data também aprovada como nome da nova Loja. Em 17 de setembro do mesmo ano o Grão-Mestre Joaquim Saldanha Marinho assinou a Carta Constitutiva, através do qual a Loja foi regularizada.  Em 8 de abril de 1874 ocorreu a sessão magna de regularização.

A primeira diretoria da Loja, em caráter provisório, foi assim constituída: Venerável, José Paulino de Castro Medeiros; 1º Vigilante, Conrado Mayer; 2º Vigilante, Orlando Alves de Paiva; Orador, José Inácio Pereira do Lago; Secretário, Abel Ageleu Dantas; Tesoureiro, Joaquim Fernandes Dias e Mestre de Cerimônias, João Severiano de Souza.

Houve, no entanto, uma resistência muito grande por parte da Igreja Católica, contra a instalação dessa Loja em Mossoró. Isso porque os Bispos de diversas Dioceses do Brasil dirigiram aos Párocos cartas pastorais proibindo-lhes, entre outras coisas, casarem maçons e consentir que fossem padrinhos de crianças. Essas recomendações foram seguidas ao pé da letra pelo Vigário Antônio Joaquim Rodrigues, pároco de Mossoró. Essa atitude do Vigário, provocou os ânimos dos maçons da “24 de Junho”, que abriram luta atacando-o através do jornal “O Mossoroense”, tanto em artigos como em discursos publicados.

Devido a essa proibição, em 1882 o maçom José Paulino Campos de Oliveira, durante uma missa que estava sendo celebrada pelo Vigário Antônio Joaquim, levantou-se e declarou em voz alta e inteligível perante todos que se achavam presentes, que recebia em casamento por sua legítima mulher, D. Filomena Nepomucena, fazendo esta também declaração que recebia aquele por seu legítimo marido. Isso causou um grande reboliço na missa, mas consultado o Bispo da Diocese sobre o assunto, este considerou-os legitimamente casados.

Outros maçons, querendo casar, contaram com a ajuda do Ministro da Igreja Presbiteriana De Lacey Wandlaw, que havia fundado uma Igreja em Mossoró, para realizar os seus casamentos.

Houve ainda o caso de Jeremias da Rocha Nogueira, fundador do jornal “O Mossoroense”, e também membro da Loja “24 de Junho”. É que em 27 de maio de 1873, quando nasceu o filho de Jeremias, que possivelmente se chamaria João Batista da Rocha Nogueira, o Vigário Antônio Joaquim não aceitou batizá-lo alegando que o pai e o padrinho da criança, Targino Nogueira Lucena, eram maçons. Assim o pai levou o filho para a Loja Maçônica “24 de Junho”, onde o batizaram simbolicamente com o nome daquele que acreditavam ser o patrono da Ordem Escocesa Antiga e Aceita, São João da Escóssia. Daí, João da Escóssia Nogueira, o fundador da família Escóssia de Mossoró.

Mas essa guerra entre católicos e maçons não ficou por aí. Outra pérola dessa situação foi publicada no jornal “O Mossoroense”, na sua edição de número 38, datada de 5 de julho de 1872, publicava:

“Afirmam-nos que um indivíduo conhecido nesta cidade por Zé Toco (José Alexandre Freire de Carvalho, que é membro da Câmara Municipal), ouvindo dizer de um jesuíta que a maçonaria é a sociedade do bode preto e, capacitado desta caraminhola, armou-se de um clavinote na noite de 24 passado (quando teve lugar nesta cidade uma reunião maçônica) e cercando a casa, rondou e fez sentinela por largas horas, esperando que espirrasse o tal bode, com o fim de lhe fazer fogo.

Como, porém, estivesse até alta noite, quase dispersou a dita reunião sem que o bode aparecesse, recolheu-se o homem do clavinote a sua casa, com cara de asno, por ter perdido a caçada.

O público que tomou conta do fato tem atazanado por tal forma este pobre diabo, que nos dizem andar corrido e desconfiado pela famosa embaraçadela.

Há poucos exemplos desta natureza que possam revelar tão grande força de ignorância e estupidez. O que seria dos hipócritas e velhacos se não houvesse idiotas deste quilate!!!”

Apesar de todas essas lutas, a Maçonaria tem deixado o seu legado na cidade, sempre cumprindo os seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A prova maior desse conceito é quando encabeçou a luta pela libertação antecipada dos escravos, evento esse que culminou em 30 de setembro de 1883, quando declarou Mossoró livre da mancha negra da escravidão, cinco anos antes da Lei Áurea, que aboliu por definitivo a escravidão no Brasil.