Onda de enforcamentos em presídios desafia controle da segurança carcerária

No início da semana passada três presos foram mortos por enforcamento em unidades prisionais do Rio Grande do Norte, subindo para 28 assassinatos ou mortes misteriosas, somente este ano. Das mortes, 14 delas foram por enforcamento e estão sendo investigadas pela Polícia Civil, devido suspeitas de assassinatos e não suicídios.

Segundo a assessoria da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc), oficialmente os detentos cometeram suicídio e, somente após a conclusão das investigações, se for comprovado que os presos foram assassinados, novas medidas serão adotadas.

Outro ponto de divergência da assessoria da Sejuc é com relação ao número de presos que morreram dentro de unidades prisionais. A Coordenadoria Administrativa Penitenciária Estadual (Coape), órgão que cuida das unidades prisionais, reconhece apenas que 25 detentos foram mortos ou morreram de forma suspeita em presídios do RN.

Segundo a contagem da Coape, 14 presos foram enforcados, 10 foram assassinados e um outro teria morrido vítima de overdose. “Esses são os números oficiais que temos e trabalhamos em cima dessas ocorrências, que foram registradas nas unidades prisionais”, explicou um dos assessores da Sejuc.

Em contraponto aos números do Governo, com relação às mortes de detentos em presídios, a reportagem do O Mossoroense identificou, mediante informações colhidas nas unidades prisionais, que somando aos números da Sejuc, foram registradas ainda uma morte de preso por envenenamento, um detento que morreu em uma unidade médica prisional, após ter sido esfaqueado e outra morte misteriosa, que um recluso passou mal e morreu ao da entrada em um hospital. Todas esses três casos foram registrados em presídios de Mossoró, e não foram contabilizados pela Coape.

Rivalidade
Os números da violência dentro dos presídios do RN se tornaram alarmantes após os conflitos entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Sindicato do RN, facções criminosas rivais que atuam dentro e fora de unidades prisionais, se acentuarem no Rio Grande do Norte.

O estopim para os conflitos das organizações criminosas, de acordo com a Polícia Civil, foi o assassinato de quatro presos, no dia 16 de agosto, mortas com requinte de crueldade, dentro da Cadeia Pública Promotor Manoel Alves Neto, na cidade de Caraúbas. Na ocasião, detentos membros do PCC invadiram as celas da triagem onde os presos estavam e os mataram a golpes de facas artesanais. A morte dos quatro detentos teria sido uma retaliação ao assassinato de um preso, ocorrido alguns dias antes na Penitenciária Estadual Desembargador Antônio da Nóbrega Pereira, o Pereirão da cidade de Caicó, ocasião em que o Sindicato do RN teria assumido a autoria.

“Com as mortes de presos sendo atribuídas a facções criminosas, passou-se a ter uma supervalorização de tudo que acontece nas prisões por parte de alguns segmentos da imprensa, que só serve para instigar as facções”, disse um dos membros dos direitos humanos da OAB.

Mortes ocorridas na semana tiveram características semelhantes

As três mortes de presos por enforcamento, ocorridas em presídios da capital e do interior, no início da semana, tiveram características semelhantes, todos foram encontrados dependurados em lençóis, nas grades das carceragens. Até o momento a Coape não confirmou se os casos teriam alguma relação entre si e que foram motivadas por brigas de facções.

Entenda
Os enforcamentos ocorreram em apenas 24 horas e segundo a Coape, o detento Douglas Fabrício de Oliveira Pires, encontrado enforcado na tarde da última terça-feira, em uma das celas do Pavilhão A do Complexo Penal Estadual João Chaves, localizado na Zona Norte de Natal.

Antes, na manhã da terça-feira, a equipe de agentes que estava no plantão da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, encontrou um detento morto por enforcamento, dentro do Pavilhão IV. Alexsandro Ferreira Barbosa da Silva, 31, foi morto de forma misteriosa.

Já segunda-feira (16), na Cadeia Pública Juiz Manoel Onofre de Souza, em Mossoró, Francisco Antônio Duarte, 27, estava pendurado em lençóis, em uma das grades do banheiro. A diretora da Cadeia Pública, Aurivaneide Lourenço, explicou que o crime pode ter ocorrido entre as 9h e 13h, período em que os detentos saem para tomar banho de sol. “No final do banho de sol, quando os presos retornaram às celas, foi feita a contagem e faltava um deles. Ao realizarmos uma busca, o preso foi achado morto por enforcamento, pendurado em uma das grades do banheiro da ala de sol”, destacou a diretora.

RELAÇÃO DE DETENTOS MORTOS EM PRESÍDIOS

Novembro

– Alexsandro Ferreira Barbosa da Silva (Penitenciária Estadual de Alcaçuz)
– Francisco Antônio Duarte (Cadeia Pública de Mossoró)
– Rodrigo Nascimento Silva (Penitenciária Estadual de Alcaçuz)
– Arlindo de Lima Silva (Penitenciária Estadual de Alcaçuz)

Outubro

– Francisco Marques dos Santos (Cadeia Pública de Nova Cruz)
– Magnum Guedes de Moura (Presídio Raimundo Nonato Fernandes, em Natal)
– Clésio Barbosa de Souza Oliveira (Penitenciária Estadual de Alcaçuz)
– Joel Rodrigues da Silva (Presídio Raimundo Nonato Fernandes, em Natal)
– Cryslon Carlos Lima (CDP de Ceará-Mirim)
– José Wilde da Silva (Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta)
– Edson Nascimento da Costa (Presídio Raimundo Nonato Fernandes, em Natal)
– Alexandre Ferreira Freitas (Presídio Raimundo Nonato Fernandes, em Natal)
– José Fagner Tibúrcio (Penitenciária Estadual do Seridó, em Caicó)
– Sairo Luan Leite (Penitenciária Estadual do Seridó, em Caicó)
– Jefferson Vieira Lopes da Silva (Penitenciária Agrícola Mário Negócio, em Mossoró)

Agosto

– Denison Costa e Silva (CDP do Potengi, em Natal)
– Cassiano Henrique Galvão (Presídio Raimundo Nonato Fernandes, em Natal)
– Fábio Júnior da Silva Patrício (Penitenciária Estadual do Seridó, em Caicó)
– Emerson Santos da Luz (Presídio Rogério Coutinho Madruga, em Nísia Floresta)
– Antônio Edigleidson de Souza (Cadeia Pública de Caraúbas)
– Genilson Bezerra de Oliveira (Cadeia Pública de Caraúbas)
– Gladstone Clementino Araújo (Cadeia Pública de Caraúbas)
– João Paulo Silva Dias (Cadeia Pública de Caraúbas)
– Alexsandro Teodósio da Silva Pessoa (Presídio Rogério Coutinho Madruga, em Nísia Floresta)

Fevereiro

– Eliel Heberton da Silva (Ceduc de Caicó)