O SHOW DO DESESPERO

Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor

Há um filme de 1969 com Jane Fonda, a musa daqueles anos, chamado A Noite dos Desesperados, feito a partir do livro de Horace McCoy. O título em inglês é They Shoot Horses, Don’t They?

O filme se passa no período da depressão nos EUA, época do desastre econômico, desemprego, miséria e desespero, em que as pessoas faziam tudo por um prato de comida. Os espertalhões de sempre bolam um show de horrores, uma maratona de dança em que cem casais dançam dias sem parar até além da exaustão física e psicológica, sob os olhos de uma plateia ávida pela desgraça alheia. Pouco a pouco os candidatos vão caindo de humilhação, fome, cansaço e desespero. Assisti quando adolescente e conservo até hoje o impacto de ver como pessoas se aviltam e podem ser tratadas como animais, mostrando o que há de pior na alma humana. O desempenho de Jane Fonda é uma atração à parte.

A TV se esmera em promover coisas semelhantes na busca por audiência. Em Largados e Pelados casais se submetem a todo tipo de provações e privações em troca de um prêmio em dinheiro. Deixam-se abandonar em uma selva, sem nenhuma roupa ou abrigo, comendo qualquer tipo de coisa que encontram – insetos, larvas, ratos. Passam frio e fome e  muitas vezes adoecem ou se desidratam, sendo obrigados a abandonar o jogo, culpando a si próprios por não terem aguentado.

Chamam reality show a esse tipo de coisa. O BBB (minha mãe de 91 anos chama Bê-bê-bosta) confina um grupo de pessoas em uma casa-estúdio de forma promíscua, vigiadas 24 horas por dia por câmeras postadas em todos os recantos da casa. Todas as noites “festas” são promovidas com abundância de bebida, o que faz com que os ânimos (e a libido) se exaltem. E aí surgem os testes de limites físicos. Fiuck, filho de Fábio Júnior, passou onze horas seguidas pendurado em uma roda a girar constantemente como um hamster.

Outro canal usa a mesma fórmula só que em uma fazenda, e os participantes tem que cuidar de animais, ordenhar, etc., e exibir cenas de nudez mais ou menos explícitas dependendo do participante. O resto do tempo transam ou brigam entre si. A falta de aptidão para as tarefas do campo constitui o grau de dificuldade.

E agora outro desses programas de resistência está no ar. Chama-se No Limite. Um grupo de pessoas acampa em uma praia do Ceará e passam por inúmeros testes, inclusive de falta de comida decente. Em um dos episódios tiveram que comer cérebro de carneiro e olho de boi.

Bem, já vimos coisas piores. Basta lembrar que as execuções e tortura, na Idade Média, eram espetáculos públicos concorridos e que as famílias disputavam os melhores lugares levando suas crianças pela mão. Na cidade de Mons, França, os cidadãos chegaram a comprar um bandido apenas para assistir o seu esquartejamento em praça pública. Era a diversão dos domingos. Às vezes se retardava o golpe de misericórdia para maior deleite do público. Foucault registra, no livro Vigiar e Punir, essa sentença de 1757: “… atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento”.

Infelizmente mudamos a nossa moral muito pouco, em tanto tempo. O BBB bateu recordes de audiência. A vencedora tornou-se, do dia pra noite, ídolo de muita gente e conquistou milhões de seguidores. Talvez seja uma forma de esquecer os tantos males que se abatem sobre nós. Afinal estamos isolados, assustados, aguardando a vacina salvadora, cantando, tal como na música de Alceu, “já escuto os seus sinais”.

Sei não, mas ainda prefiro passar o meu tempo com um bom livro ou vendo um jogo do Flamengo de Gabigol – sofro muito menos.

 

NATAL/RN