Quando a Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão na casa de um prefeito, o mínimo que a sociedade espera é coerência entre discurso e prática. Foi exatamente essa coerência que entrou em xeque no caso do prefeito de Mossoró, Alyson Bezerra.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Alyson afirmou ter a “mente tranquila” e disse que não tem “nada a esconder”. A declaração, à primeira vista, tenta transmitir serenidade e confiança. No entanto, os fatos que vieram à tona depois levantam uma pergunta inevitável: se não há nada a esconder, por que o prefeito se recusou a entregar as senhas de seus aparelhos apreendidos pela Polícia Federal?
Do ponto de vista jurídico, é importante registrar: Alyson Bezerra exerceu uma prerrogativa legal. A Constituição garante a qualquer investigado o direito de não produzir prova contra si mesmo. Trata-se de um direito fundamental, amplamente reconhecido e utilizado em investigações no Brasil e no mundo. Ninguém é obrigado a colaborar com aquilo que possa lhe prejudicar.
O problema não está, portanto, na legalidade do gesto. Está na contradição política e moral entre o discurso público e a conduta prática.
Ao dizer que não tem nada a esconder e, ao mesmo tempo, impedir o acesso da Polícia Federal ao conteúdo dos aparelhos, o prefeito cria uma zona cinzenta que alimenta dúvidas, suspeitas e questionamentos legítimos da população. A recusa pode ser legal, mas não é neutra do ponto de vista simbólico. Pelo contrário: ela comunica.
Comunica cautela extrema. Comunica medo de exposição. Comunica que há algo sensível ali, não necessariamente crime comprovado, mas algo que o investigado prefere não ver analisado por investigadores federais.
E é exatamente aí que nasce a pergunta que ecoa nas ruas e nas redes: o que, afinal, o prefeito teme que seja encontrado?
Em tempos de discurso permanente sobre transparência, moralidade administrativa e combate à corrupção, atitudes contam tanto quanto palavras. A política moderna não se sustenta apenas na retórica bem ensaiada de vídeos para redes sociais como acredita e defende o prefeito, o novo, o futuro, por mais que esteja rodeado pela politica antiga; ela se sustenta na coerência entre o que se diz e o que se faz quando os holofotes se apagam e a investigação começa.
Ninguém está afirmando culpa. Isso cabe à Justiça, e somente a ela. Mas é legítimo e necessário questionar. O silêncio protegido por senha pode ser um direito constitucional, mas também é um fato político. E fatos políticos geram interpretação, desgaste e desconfiança.
Se a mente é, de fato, tranquila, por que blindá-la com senhas?
Se não há nada a esconder, por que esconder?
Enquanto essas perguntas permanecerem sem resposta, o discurso de serenidade seguirá confrontado pela dúvida. E, na política, a dúvida costuma falar mais alto do que qualquer vídeo cuidadosamente editado.




