O PROBLEMA NÃO É CHEGAR. É INTEGRAR

Tomislav R. Femenick - Historiador

Volta e meia, deparamo-nos com a velha arenga sobre quem descobriu a América, assunto que agora voltou à arena, por meio de um estudo, efetuado por acadêmicos de uma universidade britânica. Se considerarmos esta parte do mundo apenas como uma região geográfica e o “estado da arte” da antropologia social, o seu descobrimento deu-se pelos povos que primeiro povoaram este espaço. Dessa forma, a verdade sobre os descobridores reconheceria como tais os asiáticos, polinésios, africanos ou quem quer que tenha dado origem aos chamados povos americanos nativos. Alguns desses grupos desenvolveram-se e até criaram civilizações sofisticadas, como os Maias, Incas e Astecas, porém essas foram sociedades estanques, sem comunicação com o resto do mundo. O “descobrir” da América não tem somente o sentido de encontrar. Seu significado maior está em dar a conhecer, revelar, identificar; integrar com o resto do mundo. É com esse enfoque que se deve garimpar na arqueologia cronológica do descobrimento.

Muitos reivindicam a primazia de terem, se não descoberto, pelo menos chegado à América antes dos ibéricos. Não pelo Atlântico, porém pelo Pacífico, os chineses poderiam ter por aqui aportado, muito embora tivessem que vencer os obstáculos das correntes marítimas desfavoráveis e as longas distâncias a serem singradas. A verdade apresentada é um escrito do século V, em que se descreve uma viagem que um monge budista realizou a uma terra com arvores desconhecidas da China, onde havia cavalos e carros. Como na América pré-colombiana não havia cavalos e a roda era desconhecida (Gaibrois, 1946), essa é uma prova desqualificada.

Africanos também podem ter acostado no Novo Mundo antes das navegações espanholas e portuguesas. As verdades são muitas, inclusive as grandes estátuas de pedra dos Maias e estatuetas de barro cozido recolhidas de regiões do México, que têm feições típicas da raça negra. Alguns escritos de autores árabes apresentam verdades diferentes, porém menos sólidas. Abubákar, dirigente muçulmano do reino africano de Mali, teria enviado uma frota para explorar o Atlântico, objeto de curiosidade desde os mais antigos tempos (Ki-Zerbo, 1980; Hart, 1984), para investigar a existência de terras atrás do horizonte. Por volta de 1300, o sultão de Guiné, Mohamed Goa, teria efetuado outra expedição à América (Mellafe, 1984).

Verdade de outro quilate comprova a presença na América de Leif Ericsson, um viking que aqui fundou uma vila na ponta nordeste do que é hoje a Terra Nova, no Canadá, a Vinlândia. A presença dos nórdicos perdurou até 1020 e foi somente um ato de coragem, uma longa viagem por mares desconhecidos, que nada modificou a compreensão do mundo para eles e para ninguém e não resultou em nenhuma consequência histórica. O mais extraordinário não foi que os Vikings tenham realmente chegado à América, mas sim que lá tenham chegado, e até nela se tenham fixado durante algum tempo, sem ‘descobrirem’ a América(Boorstin, 1989; Lamarca, 1910/1913; Gaibrois, 1946; Céspedes, 1985). Não há a menor dúvida quanto à verdade da presença viking no continente, como provam os escritos rúnicos feitos em pedra, em Kensington, no estado norte-americano de Minnesota; espadas típicas em outros lugares no norte do continente (Padron, 1981) e o sítio arqueológico de L’Anse aux Meadows, no Canadá. Entretanto, o chamado Mapa de Vinlândia, pertencente à Universidade de Yale – tido como uma prova cabal de que os exploradores nórdicos traçaram mapas do continente, muitos anos antes das grandes viagens ibéricas – é, segundo tudo indica, falso. Análises realizadas pelo Dr. Douglas McNaughton, físico do Smithsonian Institute, evidenciou que somente o pergaminho, sobre o qual foi desenhado o mapa, data do século XV e que ele nada mais é do que uma cópia pouco alterada de outros mapas do século XVI, em uma falsificação realizada no início do século XX (Wilford, 2000). Prova de que é falsa a informação de que vikings mapearam a América, conclui o físico. É, parece que foram mesmo os ibéricos os nossos descobridores e conectores com o resto do mundo.

PS: Para mais detalhes, veja meu livro “Conexões e Reflexões sobre História”.