O POLÍTICO PROFISSIONAL E A “SEGMENTAÇÃO DE MERCADO”

Nos estudos sobre administração e negócios, aprendemos a incorporar em nosso vocabulário, jargões como segmentação de mercado, estratégias de marketing, recursos valiosos da firma, competências, capital intelectual e financeiro. A compreensão a princípio, é que esses termos são exclusivos do mundo da gestão empresarial, porém, ao analisar a forma como se faz política no Brasil, percebemos que esses aspectos são pertinentes ao universo das campanhas eleitorais e dos políticos profissionais. Ao fazer um paralelo entre as estratégias mercadológicas empresariais com as táticas vigentes na “indústria” da política partidária brasileira, percebemos que essa associação está longe de ser discrepante e há lógica na comparação.

O Político profissional, – de maneira semelhante ao gestor empresarial – para obter vantagens competitivas sobre os rivais, precisa saber se posicionar no mercado, traçar a melhor abordagem de marketing e desenvolver competência para administrar recursos valiosos no setor e se relacionar de forma diferenciada com cada segmento que se caracteriza como a fonte de cada recurso valioso. São três esses recursos: Capital financeiro, Capital intelectual e Capital eleitoral e são três os segmentos que estão ancorados no topo, no meio e na base da pirâmide social. Cada um desses segmentos possui de forma diferente esses recursos, a estratégia adotada pelo político profissional na conquista de cada segmento e seus recursos determina a capacidade de competir e se reflete no resultado das urnas.

O topo da pirâmide no contexto da “indústria” da política brasileira não é ocupado por pessoas da chamada classe média alta, mas sim detentores de capital financeiro, são representantes de grandes conglomerados empresariais, construtoras de faturamento robusto, empresas de economia mista poderosas, corporações do mercado de capitais e financeiros.

Esse segmento de mercado, não precisa dos serviços do estado, seus filhos tem acesso às melhores universidades do mundo, podem pagar serviços de saúde de ponta e modernos sistemas de segurança privada, trafegam de helicópteros e jatinhos, degustam vinhos e iguarias finas em restaurantes sofisticados e descansam em resorts de luxo ao redor do planeta. O seu interesse no relacionamento com o estado são os negócios com o setor público que podem gerar dividendos para as suas corporações. Esse segmento não seria interessante para o político profissional do ponto vista eleitoral por um motivo óbvio: O pequeno contingente, em outras palavras, esse público não tem um dos capitais valiosos necessários ao sucesso nos pleitos que é exatamente o capital eleitoral; em compensação, possui o capital financeiro, recurso fundamental para se obter o capital eleitoral que se encontra na base da pirâmide.

O Político profissional precisa estabelecer redes de contato com o topo e administrar o seu poder de barganha em busca de recursos financeiros para contratar o oneroso capital intelectual de marqueteiros sagazes e cabos eleitorais estratégicos na elaboração das abordagens políticas adequadas para conquistar a base da pirâmide e a construção da sua imagem e marketing pessoal, montar fortes estruturas de campanha que impressionam e demonstram capacidade de ofertar benefícios em troca de votos.

O recurso valioso “capital eleitoral” encontra-se na base, constituída por um contingente generoso, que habita as periferias das capitais e cidades de porte médio, as pequenas cidades do interior de regiões carentes e a zona rural esquecida da maioria dos municípios brasileiros, esses locais são invadidos pelos políticos profissionais em épocas de eleição em busca do capital eleitoral.
Esse contingente, dependente dos serviços públicos do estado omisso e espoliado constantemente por ajustes fiscais perversos, – instrumento de transferência da fatura de pagamento da má gestão pública para os menos abastados – transforma esse segmento de mercado da política em uma “presa” extremamente vulnerável à abordagem assistencialista e imediatista do político profissional, são ávidos por melhorias de vida, mesmo que efêmera e são seduzidos pelos benefícios aparentes da barganha eleitoral.

Entre os extremos, o topo e a base, encontra-se a chamada “Classe média” estão longe do topo, mas jamais querem se classificar como “integrantes da base” constituída por pequenos e médios empresários, profissionais liberais bem sucedidos e funcionários públicos em cargos bem remunerados, esse segmento não é interessante para o político profissional, eles não possuem nem capital eleitoral devido ao contingente modesto e nem capital financeiro pelo fato de sua renda ser tributada com aproximadamente 40% do PIB e custear do próprio bolso, serviços privados caros de saúde, segurança, transporte e educação devido à fuga dos serviços públicos deficientes que são oferecidos à base da pirâmide.

Esse segmento sofre com os reajustes da tabela do imposto de renda, com o aumento das taxas de juros em seus financiamentos de automóveis e casa própria, com a inflação nos combustíveis e na energia elétrica, com as oscilações cambiais que inviabilizam suas viagens de férias para o exterior, sofrem com a previdência privada cada vez mais cara. Todos esses aspectos se agravam exatamente por falta de representatividade política, devido ao desinteresse dos políticos profissionais nesse segmento. Dessa forma o foco dessa classe é trabalhar diuturnamente para escapar do declínio para a base da pirâmide e algumas vezes organizar protestos quando a situação econômica se agrava.

O saudoso sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”, certa vez afirmou que os tecnocratas da economia e da política enxergam as pessoas como “números” e eu diria que o político profissional e seus marqueteiros enxerga indivíduos como “segmentos de mercado”.

A face mais cruel desse cenário é quando lembramos que por trás dos “números” e dos “segmentos de mercado” encontram-se seres humanos que buscam um sentido para as suas vidas ao questionar porque nasceu em um país com uma forma tão primitiva de se fazer política.

Sueldo Câmara
Professor da UERN e aluno do Doutorado em Administração da PUC-PR