O FIM DO MUNDO

Nilo Emerenciano - Arquiteto, escritor e articulista

Duas senhoras conversavam na fila da vacina: “-Mulher, isso deve ser o fim dos tempos que minha mãe falava. Peste, desemprego, o povo morrendo sem poder sair de casa”.  Respondeu a outra: “- Pois é. E a besta do Apocalipse deve ser esse sujeito de boca roída e cara de cão! Sangue de Cristo!”.

É sempre assim. Vez por outra o papo sobre o iminente fim do mundo retorna. O fim nos ronda seja sob as águas dos oceanos elevadas pelo derretimento das calotas polares, ou entre chamas e estrelas caídas do céu. Pode acontecer também com terremotos terríveis provocados pela verticalização do eixo da terra; em uma guerra atômica; com o aquecimento solar, buraco de ozônio ou sob o efeito de tsunamis. Ou ainda através de epidemias como a que vivemos hoje.

Essas imagens povoam o imaginário dos homens há séculos. Os profetas Isaias, Joel, Amós, o livro do Apocalipse, todos falam de dias de trevas, da lua e o sol apagando, estrelas caindo do céu, de dores e ranger de dentes. O apóstolo Paulo de Tarso achava que o retorno do Cristo se daria em poucos anos, ainda durante a vida daquela geração. Na Idade Média – vide as pinturas de Hieronymus Bosch  – o fim do mundo era uma certeza muito presente na vida das pessoas. Na virada dos séculos, também.

Aqui, próximos de nós, em Campina Grande, Paraíba, uma seita chamada Borboletas Azuis reunia mantimentos e se preparava para o fim. Os adventistas aguardam o retorno do Cristo como iminente desde 1840. A Besta do apocalipse já foi – entre outros – Idi Amin Dada, Khomeini, Kadafi, Hitler, Stalin, ou seja lá qual for o ditador em evidência. Na destruição das torres gêmeas em Nova Iorque, alguém chegou a ver a imagem do demônio entre as chamas. Minha mãe guardava zelosamente as velas da minha primeira comunhão porque nos dias de escuro antes do fim, só elas acenderiam. As profecias de Lourdes ou Fátima de alguma forma previam o fim dos tempos que, felizmente, não se concretizou. Em vésperas de 1960, não sei se alguém lembra, os meninos cantavam: “pisa na fulô, pisa no buraco, sessenta vem aí, negro vai virar macaco”. Dia desses veio à luz um antigo calendário Maia que previa – mais uma vez – o fim do mundo. Tinha data certa. Isso gerou tantos escritos e reportagens, além de pessoas eruditas dissertando sobre a sabedoria Maia, capaz de prever o fim do mundo, mas insuficiente para adivinhar o fim violento de sua própria civilização.

Alguém dirá: e os adivinhos? Vejamos: o Apocalipse de João é um livro que permite múltiplas leituras, isso porque foi escrito em linguagem cifrada. O mais provável é que se referisse às atrozes perseguições sofridas pelos cristãos sob o império de Nero. Das Centúrias, de Nostradamus, podemos tirar qualquer tipo de interpretação tão enigmáticos são seus versos. E a imensa variedade de previsões não concretizadas? Nova York submerge, a Atlântida ressurge do fundo do mar… Alguém lembra o projeto Aquário (anos setenta/oitenta) que orientava a todos nós largarmos nossas casas e cidades e procurarmos as regiões altas do país, pois o resto do Brasil seria engolido pelas águas? Há, ainda hoje, mesmo aqui em Natal, os que anunciam todos os anos a chegada dos discos-voadores para fazer uma espécie de expurgo, levando os bons e deixando os maus. Vale registrar que adivinho algum previu a pandemia que nos assola.

Enfim, se por fim do mundo nos referimos ao fim do planeta Terra, é claro, que daqui a cinco bilhões de anos como nos ensina a ciência, com a extinção do Sol, nosso querido planeta azul vai desaparecer. Cinco bilhões de anos. Vocês estão preocupados com isso?

Devemos esquecer, portanto, os sempre presentes profetas das catástrofes. Tenhamos fé e confiança na ilimitada capacidade humana de enfrentar e superar as dificuldades e encontrar soluções para todos os problemas. E caminhemos para frente. Toquemos a vida de cabeça erguida e coração sintonizado com o que há de bom e belo.

NATAL/RN