O Domingo e sua leveza em nós

* Gutenberg Costa

O domingo, como dizia aquela antiga brincadeira quase cantada – “Hoje é domingo, pede cachimbo…”. E é necessário e justo afirmar que essa e outras coisas belas do mundo infantil foram registradas pelo meu saudoso mestre e amigo folclorista Veríssimo de Melo (1921-1996), em seu livro ‘Folclore Infantil’, de 1965. E esse domingo, que pedia cachimbo, era o mesmo que pedia calma para a alma agitada e o merecido descanso para o corpo, o qual já vinha trabalhando da segunda ao sábado.

Dia leve que eu tiro para pisar no freio. Ler ou reler com muita calma um bom livro, de preferência as crônicas de Rubem Braga, Rubem Alves ou Vicente Serejo. Fixar os olhos nas poesias doces de Cora Coralina ou Adélia Prado. Ou de Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. É claro que também me cabe uma boa biografia, do genial Gilberto Freyre, por exemplo, que ainda estou a acabar. Ou anotar os eternos ensinamentos de Câmara Cascudo, o nosso mestre, de quem sempre se procura para saber mais algo na vida, ensinamentos bebidos da boa água do povo, como já disse o grandíssimo poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, em relação ao Cascudo, que é bem nosso, mas, infelizmente, pouco lembrado pela nossa Natal…

Domingo é dia abençoado para começar assistindo o programa televisivo do cantor e compositor Rolando Boldrin. Único programa de televisão para se ajoelhar diante da TV, como se estivesse na frente de meu velho oratório a pedir saúde e paz para meu santo padre João Maria. É dia de ligar a minha radiola com paciência. Escolher um vinil com bastante carinho de Maísa Matarazzo ou Elizabeth Cardoso. No balaio das coisas boas também cabe Elza Soares, Luiz Gonzaga, Milton Nascimento ou mesmo Belchior, que inclusive, eu tive o privilégio de conhecer de perto e até bater um longo papo com o mesmo, isso há décadas, em Mossoró. Ao me despedir do saudoso gênio musical cearense, ele deixou escrito o seu longo nome em minha agenda da época, que está em meio a minha bagunça.

Quando criança, sem a liberdade de escolhas, era acordado logo cedinho com o cantar dos galos para ir assistir à missa dominical da Igreja de São Pedro, no meu bairro do Alecrim. Confesso que ia com desgosto, seguro na mão de minha mãe e levando carões de meu pai ao correr para apanhar sapotis e jambos caídos dos pés no meu caminho. Não havia as pedras, de quem fala Mário Quintana, para na volta construir o meu castelo. Na dita missa, nem prestava atenção ao falar do velho padre ‘Martinho’, um pouco enrolado misturando o seu holandês com o nosso nordestinês… só me lembro que jurava não obrigar, no futuro, meus filhos ou minhas filhas a seguirem religião, futebol ou política… e acho que isso pelo menos cumpri!

Adolescente e aos quatorze anos, já trabalhando e com dinheiro no meu bolso da surrada calça comprida, ia nas tardes dos domingos ao saudoso parque São Luiz, lá no Baldo, divisa do Alecrim com a Cidade Alta. Às vezes, cometia as inevitáveis presepadas de pagar ao locutor da cabine para anunciar a música de Waldick Soriano, sem denunciar o nome da então namorada: de um alguém para um alguém: Amigo, por favor leve esta carta e entregue aquela ingrata… vou ficar aqui chorando…”. Quando chegava um circo novo e eu na ocasião, pudesse pagar o ingresso, ia as tardes, assisti-lo, mas sempre no chamado poleiro, que eram as tabuas colocadas ao seu redor para atender o considerado povão. Quem tinha dinheiro franco ia para as poltronas na parte da frente. Algumas vezes, eu ia as matines nos dois clubes perto de minha casa, o Atlântico ou Alecrim Clube, este segundo, maldosamente tinha o apelido de – ‘coice da burra’.

Também costumava ver aos domingos, os amigos jogarem bola, nos campos improvisados dos terrenos desocupados, nas redondezas de minha casa. Não pude ser jogador e seguir o destino de meu herói Garrincha, pois papai rasgara a única e velha bola existente em nossa casa. Ele usara a desculpa autoritária, que não queria os filhos na vagabundagem. E não adiantava convence-lo que a nossa seleção já era tri e que seus jogadores viviam bem de vida. Papai queria mesmo, vê os filhos mecânicos, marceneiros, militares ou motorista, como o próprio. Mais tarde, eu contrariaria todos os prognósticos e profecias de seu Geraldo Costa, quando me deparei com os senhores Machado de Assis, Monteiro Lobato e Eça de Queiróz, que eu pensava até ser da família da nossa Rachel de Queiróz, cronista que eu acompanhava na revista O Cruzeiro, lidas na casa do meu avô Hermógenes Medeiros, lá em Pendências.

Mas, o domingo é tema inspirado para a poetisa Adélia Prado, a qual escreveu com o coração de lembranças: “Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas… em meu país de memória e sentimento, basta fechar os olhos: é domingo, é domingo, é domingo” – Para Comer Depois, Reunião de Poesia, 2013. E o nosso pai da crônica brasileira, Rubem Braga, tão inspirado em seus textos líricos, lembrou-nos de seus domingos como ninguém, desse nosso mundo cruel e as vezes tão desumano: “ … É doce aprender coisas simples; depois de uma certa idade, em que a nossa ignorância já está sobrecarregada de noções inúteis, certas ou erradas… Encho meus domingos com uma longa e vária cultura de almanaque…”.

Só os loucos e sábios, diriam com coragem e sem vergonha nenhuma, que leem almanaques aos domingos. Sim, o domingo é um dia de amenidades, coisas simples, como os velhos almanaques ou crônicas em jornais impressos. É indiscutivelmente um dia oportuno que eu reservo para receber amizades para um papo no meu terraço, dos fofoqueiros. Dia de observar as flores, a alegria dos pássaros e borboletas libertos, em meu quintal. Espiar o sol ou tomar banho de biqueira, como menino lá em Pendências, quando chove. Dia de netos e netas com suas traquinagens, bagunçarem toda nossa besta arrumação e decoração exagerada da semana. Dia de fazer como os velhos, cortar laranja arredondando com faca afiada. Degustar devagarinho um bom vinho, um suco natural de mangaba ou caju. Até mesmo, pitar o esquecido ‘rapé’ para limpar as narinas poluídas do século XXI – ‘Athim!’

E não podia esquecer de dois grandes cantores, que se encantaram e sempre cantam nos meus domingos, logo pela manhã. Nelson Ned, perguntando-nos: “O que é que eu vou fazer domingo à tarde…”. Já Paulo Sérgio, recordando a nossa bela e feliz infância e nossa santa vozinha: “… E aos domingos, tinha missa na matriz… quanta saudade, dos chinelos da vovó… “. Gilberto Gil, quando chega na minha radiola, todo fiota, canta o seu domingo no parque e alegra até meus patos e galinhas… Meu cachorro, gosta de roque nacional e por isto, foi batizado com o nome sagrado de Raul Seixas…

Para encerrar essa delonga muita cumprida, tal qual como disseram os santos São Francisco e Padre Vieira aos seus peixes e pedras, eu digo aos siris e caranguejos da Lagoa Papary aqui tão perto de minha morada: ‘triste da vida vivida sem novas descobertas, novas leituras e novos conhecimentos. Triste de quem pensa mais em dinheiro do que na própria qualidade de vida e paz interior. E feliz de quem sobreviverá e escapar dessa desgraceira dita pandemia. Mas, hoje é domingo, e é dia de comemoração e alegria geral do nosso povo, já tão sofrido!

 

Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

 

* Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e folclorista.