O desfazimento do Brasil

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia e história

Quando eu me entendi como gente, vivia num país bem diferente do que é o Brasil de hoje. Era um país ainda meio bucólico, onde se amava a natureza e se exaltavam as palmeiras e o canto do sabiá. Tínhamos saído da cruel ditadura de Vargas e respirávamos os ares da democracia. Tínhamos um presidente militar, porém respeitador do “livrinho”, a Constituição. Nas artes tinha baluartes como Portinari, Panceti, Villa-Lobos, Eleazar de Carvalho, Pixinguinha, Carmem Miranda e muitos, muitos outros. Problemas? Existiam, mas… onde não os há?

O fato era que nos orgulhávamos de nossa pátria, a nossa “pátria amada Brasil”. Nas escolas, formávamos filas na frente das salas de aula e cantávamos trechos do Hino Nacional e, como era o meu caso, do hino do Colégio, quando havia. Aí descobri que o Brasil era o país do futuro, como previsto por Stefan Zweig, um judeu nascido na Áustria. Como era bom ser brasileiro e dispor de um futuro promissor.

Mas… esse futuro foi solapado por um bando de brasileiros inescrupulosos. Jânio Quatros renunciou à presidência da República em pleno delírio etílico. Jango Goulart assumiu a presidência e começou a flertar com ideias esquerdistas e foi defenestrado do trono. Os militares tomaram o poder para ajeitar tudo em pouco tempo, ficaram mais de vinte anos comandando a tropa. Depois vieram Sarney, o senhor inflação; Collor, cassado por improbidade; Fernando Henrique, o criador da reeleição; Lula, o operário que fez amizade com os grandes empreiteiros e se locupletou; Dilma, a gerentona que não soube gerir e deu algumas pedaladas, e chegamos a Bolsonaro (Itamar e Temer foram só acidentes de percurso).

Apesar de alguns tropeços aqui e ali, as instituições que edificam o estado democrático de direito ficaram intactas (exceção houve no governo militar), com alguns arranhões, uns superficiais e outros mais profundos, mas que não comprometiam seus fundamentos: respeito às normas legais, aos direitos fundamentais, e proteção da dignidade da pessoa humana.

Eis que de repente, sem aviso prévio, as câmaras de TV chegaram ao STF, e os ministros passaram a atuar como astros e estrelas de uma novela maluca, onde impera o nonsense. Ministros discutem entre si, usando linguajar compatível com uma pelada de várzea; emitem opinião antes do tempo, sobre inquérito em andamento; mudam votos já emitidos, no mesmo processo; alteram entendimentos já estabelecidos, sobre o texto constitucional. Parece que vivem em outro mundo que não o nosso. Exemplo disso são seus companheiros do STJ, que preveem gastar a bagatela de R$ 42.750,00, para compra de togas, becas, capas e outras vestimentas. Isso tudo quando, no trimestre de dezembro a fevereiro último, a taxa de desemprego atingiu 14,4 milhões de pessoas e outros seis milhões, em desalento, nem mais procuram emprego.

No Congresso nacional, cobertos pelo manto da vaidade, deputados e senadores lutam por visibilidade na CPI da pandemia, digladiam-se para ocupar cargos em que depois possam negociar com o Executivo. Não bastasse isso, aprovaram um Orçamento para 2021 que é uma peça de ficção, jogaram para baixo do tapete um montão de despesas correntes obrigatórias, somente para alargar as chamadas “verbas parlamentares”. Em um ano que já registra mais de 400 mil mortes pelo coronavírus, cortaram até verbas para o SUS, a porta de socorro dos mais pobres.

Por sua vez, o Executivo faz jogo de cena. Ora desconhece a pandemia (que já provocou mais de 400 mil mortes), atacando o distanciamento social, o uso das máscaras e os governos estaduais e municipais, a compra de vacinas e os países que nos podem fornecê-las, ora diz que ela – a pandemia – existe, mas é algo passageiro.

Não bastasse isso tudo, o governo Bolsonaro rifou os seus melhores quadros. Quantos ministros já foram mandados embora ou pediram demissão? Basta citar Mandetta, Santos Cruz e Moro. Só falta o Posto Ipiranga que, no entanto, é submetido a uma dieta de sapos empanados, dia sim e outro também.