O Comandante Schultz

Geraldo Maia do Nascimento - [email protected]

Por volta do ano de 2002 recebi um e-mail de alguém que dizia se chamar Rinaldo Schultz, que era comandante do Tiro de Guerra de Mossoró e que pretendia escrever a história daquela instituição. Que tinha feito peregrinação pela hemeroteca do Museu Histórico Lauro da Escóssia, de onde copiara todas as notícias que tinham sido publicadas nos jornais mossoroenses de 1909, quando foi criada a Sociedade Brasileira do Tiro Mossoróense, até aquela data. Mas por não ser escritor, não sabia como aproveitar aquele vasto material para contar essa história. Eu li a nota, mas por um motivo ou outro acabei não respondendo.

Passaram-se algumas semanas e o meu filho mais velho, Marcelo, que cursava Sistemas de Informação na Faculdade Mater Christi, em Mossoró, me falou que tinha um colega de classe, que se chamava Rinaldo e que era comandante do Tiro de Guerra. E que tinha comentado na classe que estava escrevendo um livro sobre aquela instituição, mas que estava encontrando muita dificuldade. Na conversa meu filho disse a ele que eu era escritor e ele perguntou o meu nome. Quando soube, disparou: “- Seu pai é um ingrato. Eu passei um e-mail pra ele pedindo ajuda pra escrever esse livro e ele não me respondeu. “ Aí eu prometi a meu filho que ia entrar em contato com Schultz.

No outro dia eu liguei para ele. Conversamos bastante e nascia aí uma grande amizade, além da parceria para a publicação do seu livro. Foram meses de trabalho até darmos por concluída a obra de mais de 400 páginas. Não aceitei o meu nome na capa, ao lado do dele. Era a obra de um comandante militar contando a história da sua instituição. Não cabia parceria.

Mas Schultz era um perfeccionista. Cada vez que lia o seu trabalho, achava que estava faltando alguma coisa. Vinha discutir comigo e ia mudando. Pediu a diretora do Museu Lauro da Escóssia, que na época era a professora Maria Lúcia Escóssia, para escrever as orelhas do livro. Pediu ao professor Antônio Farias Capistrano, ex-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN e vice-prefeito de Mossoró, para fazer a apresentação do trabalho, e dessa forma o tempo foi passando. Pretendíamos publicar pela Coleção Mossoroense, que era administrada pela Fundação Vingt-un Rosado, mas dependíamos de patrocínio.

Chegou o ano de 2004 e Schultz comunicou que estava sendo transferido para o Rio de Janeiro, pois o seu tempo como instrutor do Tiro de Guerra de Mossoró tinha acabado. Mas deixava comigo os originais do livro para que eu tentasse o patrocínio. Conversei com Vingt-un Rosado, que concordou em publicar, quando surgisse alguma verba na Fundação. E essa oportunidade surgiu quando a Fundação Vingt-un Rosado conseguiu aprovar um projeto pela Lei de Incentivo à Cultura “Câmara Cascudo”, do Governo do Rio Grande do Norte, que funciona com renúncia fiscal das empresas. E a Petrobras concordou em patrocinar.

Algum tempo depois recebi em minha casa umas caixas, contendo 300 exemplares do livro “O Tiro de Guerra de Mossoró – uma história de civismo”, de Rinaldo Difforene Schultz. Fotografei os livros e mandei via e-mail para Schultz. No mesmo dia ele entrou em contato com a Prefeita de Mossoró que concordou em bancar a vinda dele a cidade para fazer o lançamento do livro, com passagem aérea, terrestre, hotel, coquetel, tudo pago pela Prefeitura, cujo lançamento se daria no próprio Tiro de Guerra. O lançamento foi um sucesso.

Apesar da distância, estávamos sempre nos comunicando, e ele voltou mais uma vez a Mossoró, dessa vez com recursos próprios. E nossa amizade permaneceu viva.

Rinaldo Difforene Schultz nasceu em São Gabriel no Estado do Rio Grande do Sul, no dia 18 de novembro de 1962. Pertencia à 3ª geração da família Schultz que fez parte do Exército Brasileiro. Era filho do Capitão QAO R/1 Nildoir Ferreira Schultz e da Professora Eva Maria Difforene Schultz.

Ainda pequeno mudou-se para a cidade de Dom Pedrito-RS, em virtude da transferência de seu pai para o então 14º Regimento de Cavalaria Mecanizado. A convivência diária com a vida militar teve forte influência quando teve de decidir qual profissão seguiria.

Aos 13 anos mudou-se para Porto Alegre/RS, por motivo de nova transferência de seu pai. Após a conclusão do ensino médio, prestou concurso em 1982 para a Escola de Sargentos das Armas, tendo sido aprovado, partiu então definitivamente para a carreira militar.

Serviu de norte a sul no Brasil, passando por muitas organizações militares. Em 1994 foi nomeado instrutor do Tiro de Guerra de Londrina-PR onde ficou por cinco anos e em 2001 foi nomeado instrutor do Tiro de Guerra de Mossoró, para um período de mais quatro anos. Todo este tempo no exercício da função fez com que desenvolvesse uma afinidade muito grande com as peculiaridades do cargo, fato este que muito o ajudou na sua chegada à Mossoró, pois viu que poderia colocar em prática toda a sua experiência.

Com um trabalho sério e comprometido com o social, aproximou o Tiro de Guerra de Mossoró da comunidade. Com o apoio da Prefeitura Municipal conseguiu recuperar as instalações do TG, oferecendo aos atiradores maior segurança e condições de aprendizado da instrução militar. Pelo seu trabalho, foi agraciado com o “Título de Cidadão Mossoroense”, outorgado pela Câmara Municipal de Mossoró.

Cumpriu o seu tempo nas Forças Armadas e saiu para o descanso da aposentadoria como 1º Tenente RI. Mas infelizmente no dia 27 de junho de 2021, o TG07-010, em nota oficial, comunicava o falecimento do antigo chefe de instrução daquele TG, aos 59 anos de idade, vítima de um aneurisma. Toda a cidade de Mossoró se comoveu, expressando os sentimentos de pesares para toda a família pelas redes sociais.

Segundo suas próprias palavras, “não existe pátria sem chão e nem povo sem história”. Rinaldo Difforene Schultz deixou o seu nome gravado na História de Mossoró.