Número de mortes dispara com 2ª onda de covid-19 na Europa; veja evolução

Em 2 de outubro, o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom, elogiou lideranças mundiais por agirem para “virar a maré” da pandemia. O 1º continente destacado por ele na ocasião foi a Europa.

Apenas 10 dias depois, Adhanom fez novo pronunciamento. O tom foi outro. “Temos visto nos últimos dias o aumento no número de notificações de casos de covid-19, especialmente na Europa e nas Américas. O recorde diário de infectados foi quebrado seguidamente em cada um dos últimos 4 dias“.

A alta nos contágios e no número de internações verificada no início de outubro no velho continente não era um fenômeno momentâneo. Tratava-se do início da 2ª onda de covid-19 na Europa.

O infográfico abaixo compila o número de mortes por data de notificação –ou seja, não necessariamente a data em que as pessoas morreram, mas sim o dia em que as autoridades de cada país reportaram que o óbito foi em decorrência da covid-19. Os dados são da OMS e estão agrupados em 6 regiões, de acordo com a classificação da própria organização: Américas, Europa, África, Sudeste Asiático (inclui a Índia), Pacífico Ocidental (inclui a China) e Mediterrâneo Oriental (inclui Norte da África e Oriente Médio).

A evolução do número de mortes em cada região retrata bem a trajetória do coronavírus: nos primeiros meses do ano, atingiu em cheio a China (que puxou praticamente sozinha os números do Pacífico Ocidental). O Irã teve grande número de casos no início de março, mas logo os países europeus vivenciaram a 1ª onda de contágios. No fim de maio, foi a vez de Brasil e Estados Unidos enfrentarem o pior momento da pandemia. Em agosto, a Índia teve um boom de casos e virou um dos maiores focos de transmissão. Até que a partir do fim de setembro vem a nova escalada de mortes na Europa.

A maioria dos países europeus adotou medidas que restringiam a circulação de pessoas e mercadorias no fim de março ou início de abril para tentar frear a transmissão do coronavírus.

lockdown mais rigoroso funcionou. Países como Itália e Espanha reduziram drasticamente o número de pessoas hospitalizadas diariamente por causa da doença, segundo relembra o professor e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Stefano de Leo, que estuda os dados da covid-19 na Europa e na América do Sul. Isso funcionou até meados de junho, quando as medidas começaram a ser afrouxadas.

As curvas pandêmicas nesse período que coincidiu com o começo do verão europeu estavam praticamente a zero. O que aconteceu é que, com o verão, as medidas foram obviamente baixadas, voltou a circulação internacional, e isso claramente contribuiu à nova disseminação“, diz o professor.

 

 

O novo aumento de casos levou líderes europeus como Giuseppe Conte (Itália), Emmanuel Macron (França), Angela Merkel (Alemanha) e Boris Johnson (Reino Unido) a restabelecerem a quarentena. Isso aconteceu já no fim de outubro. Para o pesquisador da Unicamp, a reação foi tardia.

MORTES POR MILHÃO

Funcionários do governo fazem campanha de conscientização no Peru; país tem uma das maiores taxas de mortalidade por milhão de habitantesMinsa/Peru (via Fotos Públicas)

O infográfico abaixo, também com a compilação dos dados da OMS, mostra a taxa de mortalidade da covid-19 por milhão de habitantes em 22 países. Para chegar aos números, o Poder360 dividiu o total de mortes registradas a cada dia em cada país pela sua população e o multiplicou por 1 milhão. O método possibilita a comparação da taxa de mortalidade da doença em países com populações desiguais.

A OMS recomenda que os países busquem baixar suas taxas a até 150 mortes por milhão de habitantes.

O professor da Unicamp classifica como “desastrosa” a condução das ações de combate à pandemia na Itália, na Espanha e no Reino Unido. O alto número de mortes por milhão nesses países tem influência da baixa disponibilidade de leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) e também da escassez de profissionais de saúde.

Na Bélgica, explica o pesquisador, a taxa também é inflada pela decisão das autoridades locais de contabilizarem mortes suspeitas. Isso é feito para que a pandemia não seja subestimada no país já que, em muitos casos, os profissionais de saúde optam por economizar testes e não confirmar se a morte efetivamente foi por covid-19.

Natural da Itália, Stefano de Leo compara os dados do país com os do Brasil. Por aqui, ele explica, não é possível falar em 2ª onda de contágios porque, diferentemente do que ocorreu na Europa, o Brasil nunca chegou perto de zerar o número diário de novos casos.

O Brasil não fechou como a Europa, então fez uma onda longa, mas com pico baixo de mortes diárias –quase um platô. Um exemplo: o Brasil teve, ao poço, média de 1.000 mortes por dia. Espanha e Itália tiveram quase 1.000 também. Mas com uma pequena diferença: a Espanha tem 45 milhões de habitantes; a Itália tem 60 milhões. O Brasil tem 210 milhões“, diz.

Ainda na Itália, outro fator que explica a alta taxa de mortalidade para covid-19 é o tamanho da população idosa –grupo de maior risco para a doença. O país europeu tem quase 30% de sua população acima dos 60 anos. No Brasil, esse grupo representa menos de 15% da população total.

Poder360