NO OUTRO LADO DA RUA

A rua era de uma simplicidade sem igual. Casas baixas, calçadas de cimento ralo, portas e janelas de tramela, telhados de duas águas. Como pintura, o branco da cal; o que diferençava as residências era tão somente a pintura das portas e janelas. Umas, em tom verde escuro; outras, na tinta ocre; algumas, em vermelho sangue; poucas, azuis.

Não se sabe bem devido a que a rua desfilava numa sinuosidade descabida; como se um rio, outrora, serpenteasse por sobre os paralelepípedos da estreita ruela.

Dona Matilde Otona, ancha de sua suposta origem hispânica, atribuía aquele desenho não linear à memória dos seus ancestrais, ferreamente ligados aos meandros inolvidáveis dos becos de Madrid, Sevilha, Granada, Salamanca e outras paragens da “pátria de el-rei”.

Cuspe Brabo, do alto da sua sapiência de cachaceiro mor, estufava o peito magro e vomitava despautérios contra os moradores do Beco das Garrafas:

– A linha reta de um bêbado é um “S”. Aqui sempre foi terra de biriteiro, minha gente. Todos os pedreiros daqui não tinham nível, nem prumo.

Dona Matilde se incomodava, resmungava desconforto, mas não discutia.

E a vida corria por entre os dias longos e quentes naquelas paragens.

***

Como não poderia ser diferente nesta nossa história, em um certo dia, deu-se um acontecimento no outro lado da rua. Uma mulher feita e refeita, de quadris aprumados e de cabelos lisos e longos, sem falar no colo moreno, farto e dadivoso, mudou-se para uma das casas recém-reformadas do Beco das Garrafas.

A meninada taluda não tirava os olhos das coxas grossas da nova moradora; os rapazolas, com os hormônios espicaçando seus juízos, entregavam-se aos “pecados da carne” (como os advertira o Padre Tertuliano Bispo nas lições do catecismo) nos sonhos e nos banhos na beira do rio. Os mais velhos (de quem Deus tirara a “sustança”, mas não levara a lembrança) suspiravam quando a viam passar.

A mulherada, incomodada, deu para plantar notícias sobre a “mundana”:

– A nova cunhã do Seu Esmeraldino.

– O comerciante da Rua do Progresso?

– Ele mesmo. Quem vê aquele sujeitinho, todo cheio de bons modos e cercado de santos, não imagina que, na verdade, é um baita de um amancebado.

– E a esposa, a Dona Novembrina Pastora?

– Uma bestalhona, comadre! O cabra come na rua o que enjoou dentro de casa. Ora, se não!?

E os dias a correr por entre a vida breve e quente naquelas paragens.

***

Com os anos, a Rua das Garrafas cobriu-se de feitos, flores e rosas. Os homens, a cuidarem dos jardins e das hortas. As mulheres, a zelarem pelo aprumo dos vestidos e pelo zelo do corpo. Os rapazolas, a exigirem, de si e dos outros, mais jeito na fala, cuidado nos estudos e nos modos. Até Cuspe Brabo aposentou a profissão de pilequeiro oficial da redondeza.

Dizem que tudo obra da dama que se instalara no outro lado da rua. Mulher feita e refeita, aprumada e de madeixas longas, sem falar no colo maternal, casto e generoso.

E o tempo mudara – vida leve, rica e inquietante -, por ela (sua graça: Maria Clara) desfilar numa sinuosidade amiga; como se uma deusa de outrora, a encantar a todos por sobre os paralelepípedos da estreita ruela.

Para o amigo Marco Juno Flores
(In memoriam)