NILO EMERENCIANO – SOBRE PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO

Nilo Emerenciano é arquiteto, escritor e articulista.

Minha avó materna era uma sertaneja autêntica. Branca, cabelos lisos, fumadora de cachimbo, trabalhadora, ótima cozinheira, contadora de estórias e língua solta para dizer coisas sensatas e asneiras sem tamanho com a mesma tranquilidade. Dela ouvi expressões como “negro em pé é um toco, deitado é um porco”. Isso apesar de casada com um homem, meu avô, que era tudo menos branco. Seu Manoel era dono de uma pequena fábrica de sapatos que ele comercializava nas feiras do interior. Tinha cabelos negros lisos e pele acinzentada. Mulato, cafuzo, mameluco, qualquer desses títulos o definiriam.

Falo das coisas de minha avó porque ouvi uma apresentadora de TV corrigir a expressão denegrir como algo incorreto porque ofensivo aos negros, uma expressão racista/discriminatória. A que ponto chegamos em nosso excesso de zelo? Onde nos levou o politicamente correto? Vamos expurgar nosso dicionário? Banir palavras e expressões de uso consagrado?  Criar um index prohibitorum para o vocabulário? Não vale mais falar dia negro, ovelha negra?  Rita Lee seria censurada (sou a ovelha negra da família)? Ou Roberto Carlos (ela é negra, negra, negra, como a noite /cor do meu cabelo liso/cor do asfalto aonde piso…)?

O negro (ou trevas, escuro) sempre foi associado ao medo, ao mal, ao negativo. Magia negra, Idade das Trevas. Está na obra de J. R. R. Tolkien, o Senhor dos Anéis, quando o vilão é o senhor das trevas, Sauron,  e Gandalf, o bom mago, começa a história usando uma túnica cinza que depois se torna de um branco luminoso.   E é fácil entender o porquê disso quando lembramos os tempos em que não existia iluminação artificial e as noites representavam perigo de assaltos, assassinatos, malefícios de toda ordem, daí o recolhimento cedo à segurança dos lares e ao calor do fogo na lareira. Nada a ver com a cor da pele.

Nesse quadro, o fogo representava o calor, a luz, mas principalmente a segurança, tanto com relação aos animais ferozes quanto aos malfeitores. E o sol era soberano, trazendo a luz de um novo dia, permitindo o trabalho, o plantio e a colheita, daí ser cultuado como Apolo Invictus.

Discriminação é outra coisa. É não dar emprego (ou dar empregos menores), é forçar o uso do elevador de serviço, é a perseguição policial e a violência, é o olhar superior, é o tratamento diferenciado, é o nariz torcido, é a humilhação.  É excluir ou restringir em função de fatores vários, não só raça ou cor.

Entrevistei, anos atrás, no programa Estação da Luz, da FERN, o presidente do Instituto de Cegos do RN. Falei o tempo todo em cegos e cegueira. No intervalo o diretor me alertou: – “Não fale cego. Diga deficiente visual”. Novamente no ar, perguntei ao entrevistado: – Como prefere ser chamado? Cego ou deficiente visual? A resposta foi taxativa: “- Cego. Eu não sou deficiente visual, sou cego”.

Não há como fugir do bullying. Se o cara usa óculos é cegueta, branco é barata descascada, magro e alto é vara de tirar pinha, gordo é baleia, estudioso é CDF, ruivo é sarará, preto é negão. Se chato, é mala, otário, bundão.

É preciso distinguir o insulto e a discriminação, do natural ou até carinhoso. Evidentemente, minha avó repetia sem pensar o que havia ouvido dos mais velhos em sua infância. Talvez seja isso o que chamam racismo estrutural. Mas convivi com a minha avó e sei que ela não tinha nem a sombra de preconceito em seu coração generoso.

Mas a verdade é que ficou difícil a convivência. Precisamos ter cuidado com o que a gente fala ou escreve.

Sou produto dos anos setenta. Os negros americanos, depois de séculos de discriminação braba e muita luta, assumiram a sua negritude. Cabelos afro, espaços, música, dança e linguagem próprias, e um enorme orgulho de serem negros assim expresso: black is beautiful. Nas olimpíadas do México os atletas negros vitoriosos erguiam o punho fechado, símbolo do black power. A ideia era mais ou menos essa: Vocês nos discriminam? Nós discriminamos vocês. Reservam-nos os bancos traseiros dos ônibus? Ok, o banco traseiro é só nosso.

Gostaria de dizer à apresentadora de TV: Não, denegrir não é alusão à cor da pele. Vamos, pelo menos, ser respeitosos com a nossa língua e saber perceber os limites, inclusive do ridículo.

NATAL/RN