Música ‘brega’ nunca existiu…

Gutenberg Costa – Pedagogo, bacharel em direito, escritor, ambientalista e folclorista.

Para começar esse assunto, um tanto polêmico, consultei logo o chamado segundo pai dos burros, Houaiss, (1915-1999) dicionarista. Faz tempo que não abro o meu antigo ‘Aurélio’. Bem, o Houaiss classifica ‘brega’ como: “deselegante, cafona, quem tem mal gosto”. Graças ao referido dicionarista, descobri que sou ‘deselegante’ e ‘cafona’. Só não concordo que eu tenha mal gosto. Nem vou polemizar aqui, pois dizem que ‘gosto não se discute’. Também ouvi muito a máxima popular que afirma: “Tem gente de com gosto pra tudo!”.  Portanto, sou do ‘bregueço’, segundo o saudoso filólogo, aquele que gosta de cacarecos e quinquilharias. Adoro coisas antigas e visitar museus, os quais são verdadeiros santuários do tempo. Assumidamente, sou do bagaço ou brega com muito orgulho. Produto da feira do Alecrim, ensinamentos de dona Estela e estudos nos livros de Câmara Cascudo. O resto, me foi acrescido através de viagens e conversas com o sábio povo. Quase nada das faculdades nas quais estudei. Perdão aos mestres e mestras dos meus cursos superiores pela sinceridade!

Cresci no tempo agitado da ditadura. Sou da geração de 70 para frente. Adolescente fui logo aconselhado pela esquerda de então a só ouvir músicas chamadas de ‘protestos’. E, pejorativamente, as românticas eram classificadas como ‘bregas’. Eram ouvidas as escondidas nos cabarés, em radiolas e, depois, aquelas reluzentes com fichas. Confesso que eu ouvia muito excelentes músicas românticas de Lupicínio Rodrigues, o rei da ‘dor de cotovelo’. Das rainhas da ‘fossa’, Maysa Matarazzo, Waleska, Cláudia Barroso, Carmen Silva e a nossa conterrânea Núbia Lafayette. Os ‘chorões’ famosos que eram ouvidos a cada desengano com as namoradas: Roberto Müller, Carlos Alberto, Silvinho, Carlos Alberto, Nilton César, Noite Ilustrada, Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Paulo Sérgio, Nelson Ned, Maurício Reis, Lindomar Castilho, Evaldo Braga, Balthazar, Adilson Ramos e o velho Orlando Dias, entre muitos outros, que este cronista cafona deixa de relacionar agora. Já disse que todo domingo, eu dedico umas três horas a ouvir esses bons românticos em minhas radiolas, para espanto e risadas dos meus vizinhos. Música brega? Brega, uma ova!

Sou do tempo divertido que Odair José mandava as mulheres pararem de ‘tomar as pílulas’ e prometia a todo custo tirar uma paixão ‘daquele lugar de luz vermelha’. Lindomar Castilho, o qual matara a ex esposa, dizia que ia ‘rifar o coração’. Fernando Mendes encantado com a menina de cadeira de rodas. Evaldo Braga, o nosso ídolo negro, gritando insistentemente: ‘eu não sou lixo, meu amor’. E o grande Waldick Soriano, que criou em Natal o nosso desabafo aos amores: ‘eu não sou cachorro não!’. Nelson Ned cantando nas radiolas dos cabarés, que nessa vida: ‘Tudo passa ou passará’. Genival Santos, com sua voz não tão afinada, dizendo que: ‘eu lhe peguei no flagra e não quero explicações’.

E essa época, diga-se com toda a verdade, foi um flagrante de músicas inesquecíveis. Hoje, lamentavelmente, quase não consigo ver letras ou acompanhamentos instrumentais. Parecem um refrão só e batendo em latas. Não vou perder tempo em citá-los, porque não os escuto e nem quero conhecê-los. Peço logo que me deixem cafona mesmo, ouvindo sempre as melhores composições do romantismo brasileiro do passado.

Depois tivemos os menos descriminados pela chamada elite dos anos 70/80, os quais tocavam sem problemas em residências, como Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol, Moacyr Franco, Benito de Paula, Jessé, Wando, Wanderley Cardoso, Jerry Adriane, Antônio Marcos, Peninha, Márcio Greyk, Perla, Vanusa, Joelma, José Augusto, Jane e Herondy, Elymar Santos e tantos outros. Todos esses estão na minha lista de ótimos interpretes, vozes e compositores. E não fazem vergonha alguma, diante da música dita estrangeirada.

No bar da Brahma, no Rio de Janeiro, fui a dois shows: Cauby Peixoto e Alcione. Em Natal, no Teatro Alberto Maranhão, ouvi muita gente boa, como: Núbia Lafayette, Elymar Santos, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, esse em sua última apresentação em vida. Nana Caymi, Maria Creusa, tomando uísque no palco e brindando ao seu amado Vinícius de Moraes. E a versátil Tânia Alves, que conversou comigo e autografou vários Cds meus. Com a mesma, tive direito até as chapas batidas pelo amigo fotógrafo Evaldo Gomes. No velho café/bar do meu Alecrim, adolescente, vi de longe em show aberto ao público, na parte de cima, nomes consagrados dos anos 60, como Ângela Maria e Moacyr Franco, entre outros. Na minha casa aqui em Nísia Floresta, veio almoçar um domingo a querida amiga Glorinha Oliveira. Entrou sorridente ao ouvir na radiola a sua voz em um vinil. Gilliard, foi meu amigo de adolescência. Trabalhamos no velho centro comercial do bairro do Alecrim. Ele do bairro de Lagoa Seca, passava na minha porta e íamos juntos. Quando gravou seu primeiro ‘compacto’ me presenteou com uma dedicatória e ainda está guardado em minha discoteca.

Em Mossoró, assisti Belchior e Cláudia Barroso, entre outros nomes. De Belchior, trouxe seu longo autógrafo em minha agenda. Cláudia Barroso, uma das musas de Waldick Soriano, eu encontrei pela madrugada em um bar e restaurante, em Mossoró. Ela já cansada da idade, acompanhada de uma neta, linda como a avó. Conversamos bastante e essa prosa ficará para outro dia. Só vou adiantar que esse encontro foi testemunhado também por dois grandes amigos, Cid Augusto e Caio César Muniz. Na ocasião, éramos a santíssima Trindade de uma antiga boemia, a qual unia natalense, cearense e mossoroense! E por tocar no santo nome da terra de Vingt-un Rosado, lembro dos grandes Carlos André e Bartô Galeno.

Isso tudo escrito minha gente, é para homenagear o meu querido primo materno, radialista Neto Borracha, de Macau, que partiu recentemente sem combinar conosco. Ele tinha a décadas um programa de Rádio, muito famoso, intitulado de ‘Radiola de Ficha’. Neto radialista partiu há menos de um mês. Um dia, eu estando lá na querida Macau de muitos familiares, o saudoso primo me convocou para apresentar o seu programa junto a ele. E eu  tive que escolher as melhores músicas românticas de meu tempo. Uma honra que não tem preço! Peguei o microfone e desabafei sem querer agradar a gregos e troianos, como é minha característica. Fui bradando: Ouvintes, botem nas suas cabeças, que não existe a classificação musical chamada pejorativamente de ‘brega’. Elas são românticas. Têm belíssimas letras. Lindas e sofridas histórias de vidas. De amores e paixões. Grandes cantores e cantoras. Espetaculares acompanhamentos orquestrais. Músicas, que só encantam a alma do povo brasileiro! Quem nunca as ouviu, que atirem as primeiras pedras em mim, e poupem a pobre da Madalena… dizem, que quem nunca lamentou um amor perdido, não viveu…

As músicas boas do passado, nem parecem com as ‘bate latas’ de hoje, sem letra. Sem pé, cabeça e caneta azul. Hoje, o que se escuta, são a maior vergonha musical para o nosso Brasil! Se orgulhem leitores e leitoras, como eu, ao ouvir as inesquecíveis músicas românticas, de primeira qualidade do passado. Brega nunca! Não chamem em suas casas, dois nomes nordestinamente muito feios: ‘Brega’ e ‘diabo’! Viva o aguerrido Neto Borracha! Viva a ‘MPRB’, música popular romântica brasileira!

E para encerrar esse longo desabafo, conto-lhes, que recentemente desliguei rapidamente o meu aparelho de televisor, o único, que perde para meus rádios antigos, ao ver que uma preciosa canção romântica do genial Gonzaguinha, perder feio para 100 jurados, que escolheram e deram uma nota maior a uma candidata caloura cantando uma música estrangeirada. Juro que tive vontade de quebrar o televisor ou me mudar de país, para uma região que se orgulhasse de sua língua, cultura e música! Triste do invadido que perde as antigas origens e tradições deixadas por seus antepassados! Chamem para me acudir o santo trio, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro e Câmara Cascudo, ali ocupados com livros e boas conversas no céu!

Feliz Ano Novo, sem estrangeirismo invasor e sem vírus maldito!

Morada São Saruê. Nísia Floresta/RN.