Minhas meninas-crianças

Despontaram em botão e desabrocharam depressa, as minhas meninas-flores, os meus poemas morenos, plenos de juventude e de vida. Meu jardim floresceu, a primavera da vida de minhas crianças… Parece que foi ontem, quando chegaram, pequenas e lindas, luminosos raios de vida, primeiro Fernanda, depois Daniela. Chegou Fernanda, como chega a Esperança. Não uma esperança abstrata, mas concreta, com corpo, alma, coração, com olhos azuis, faiscantes, trazendo a luz, tão sonhada, o raio de sol arco-íris, pra iluminar meus caminhos…

É chegada Fernanda, o futuro aqui, agora, a esperança esperada, meu pedaço que faltava. Veio com Fernanda a vida, alento, felicidade, poesia, tudo brotando das mãos pequeninas e faiscando dos olhos de luz. Toda ternura guardada jorrou então, destas mãos, ávidas, desajeitadas, num carinho demorado à cabeleira sedosa, negra negra de Fernanda. Assim chegava a Esperança, que chegava com Fernanda, no grito forte de vida, na luz azul dos seus olhos, nas suas mãos diminutas, a minha poesia-menina…

E um ano depois, a vida se multiplicou: nos pequenos olhos grandes, cinzentos e luminosos, nos tantos cabelos pretos, tão macios e brilhantes, nas pernas, braços e boca, impacientes, travessos: foi Daniela que chegou, trazendo mais vida pra gente. Vida no choro sonoro e no sorriso aprendiz. Vida no sono tranquilo e sereno, um acalanto de paz. E o amor, a esperança e a vida se multiplicam, ao invés de dividir-se…

para todas as crianças e também para as crianças que vivem nos adultos

E meus sóis foram crescendo, e meu caminho ganhando mais luzes e cores: eram os sorrisos sem dentes, (tão bonitos!), depois os dentinhos que apontavam, os risos encorpados, cristalinos, que me adentravam a alma. Quatro pezinhos indecisos, teimosos e travessos, ensaiando primeiros passos, que descompasso! Mas que beleza!

E um ano se passou, e mais outro. Pouco tempo… Tanta vida…Uma palavra truncada, duas outras, tantas mais… Passos largos, corridas e disparadas. E aqueles olhos negros, aqueles outros azuis, tão brilhantes, de tão brilhantes ficaram claros, pequenos sóis de nós dois.

Felicidade sempre foi sorriso, risos e gargalhadas, um ruído de criança. Dois pares de olhos brilhantes, dois pares de mãos pequeninas, quatro pernas rechonchudas, um ar de anjos-meninas. Felicidade é isso. É pressa de voltar logo, pois há Fernanda e há Daniela esperando, nossos sóis particulares…

Braços, abraços, carinhos, sorrisos mil, risos tantos; olhos de jabuticaba, fontes de luz infinitas. Só podem ser minhas meninas. E célere correu o tempo. Tempo de festejar a vida, que com o tempo, corre célere, também. Se eu pudesse, teria parado o tempo, para ter minhas crianças sempre crianças. Mas agradeço a Deus pela ventura de ter me dado filhas que se tornaram adultos fantásticos, pessoas dignas e sensíveis, lindas na aparência e na alma. E elas continuam e continuarão a ser as minhas meninas-crianças, sempre e sempre.

Luiz Carlos Amorim
Escritor, editor e revisor