Minhas aulas de música com dois mestres…

* Gutenberg Costa

Confesso que não entendo patavina sobre música. E para essa, só tenho os ouvidos exigentes e chatos, como eu próprio. Quem me conhece, sabe que não escuto de tudo em matéria de música e, muito menos, aceito trazer para compor a minha discoteca em Vinil ou mesmo CD. Antes de ouvir um disco ou cd, leio logo o seu encarte para aplacar minha curiosidade sobre as músicas que irei ouvi-las. Quero saber o compositor e o ano da gravação. Instrumentistas e orquestras acompanhantes. E, assim, já está explicado o porquê de minha recusa em ouvir algo nesse tal do ´pen drive’, o qual vem sem os belos encartes e as suas ricas informações.

Certa feita, veio me visitar um casal amigo e a mulher, ao ver meus discos e cds, soltou uma lorota desagradável: “Isso aqui parece cemitério, seus cantores e cantoras são todos falecidos!”. Recebeu a minha justa resposta a sua atrevida observação: Eles e elas estão mortos para a senhora. Para meus ouvidos, estão bem vivos e são tocados em minhas duas radiolas quase todos os dias! Como geralmente costumo dizer às visitas ruins: ‘vá com Deus e Roberta Miranda’! E eu só não sei se a dita cuja, saiu dessa morada São Saruê e fez como eu… pois quando vou a uma casa ou lugar que não gosto, bato os pés para retirar a poeira dos calçados na saída, como tão bem faziam os milenários santos e sábios cristãos.

Outra teve a covardia de comentar sobre minhas radiolas e rádios antigos, mas na minha ausência: “Como ele gosta de coisa antiga. A casa dele é um museu!”. Caso ouvisse, teria dado a seguinte resposta bem direta e, como dizia aquela também antiga gíria de meu tempo, – na lata: a senhora tem total razão, de novo aqui só a televisão, a geladeira, o notebook e eu! O verdadeiro quarteto da modernidade!

Quando adolescente, eu percorria as antigas Rádios em Natal, principalmente para dar uma espiada nas ditas discotecas. E dessa curiosidade de menino pobre e teimoso, fiz grandes amizades e passei a ouvir boa música. Depois, bem jovem, conheci uma grandiosa e organizada discoteca, quando passei a trabalhar para o saudoso mestre e amigo músico Chico Elion, (1930-2013) em sua casa/bar Beco da Música, lá na Avenida Alexandrino de Alencar, no Alecrim. Eu era o menino que fazia compras, limpava as mesas e até o chão durante as manhãs. Sobras das boemias das noitadas. As noites, não pisava os pés ali, ordens severas de dona Estela e de Chico Elion. Ele, pacientemente, foi meu primeiro professor musical, me apresentando os grandes astros e estrelas da música popular brasileira: “Você já conhece Elizeth Cardoso? Maysa? Elis Regina? Dalva de Oliveira? Carmen Costa? Linda e Dircinha Batista?”. E isso, sem falar nos homens.

O tempo passou e eu sempre grato ao velho Chico Elion, que depois quase o mesmo chora, ao me ver trabalhando com o folclore do RN, na Fundação José Augusto, a convite do também amigo François Silvestre. Abraçando-me muito emocionado, o mesmo comentou: “Amigo François, esse aqui, quando era menino, trabalhou comigo. Me ajudou muito no meu bar Beco da Música. Eu sabia que ele ia se destacar na vida. Era muito curioso e queria saber de tudo sobre os cantores e cantoras daquele tempo. Era um menino honesto e inteligente!”. Minha saudosa mãe, conhecedora da arte do bem viver com pouco, criou-me dizendo todo santo dia que só era imperdoável nessa terra a ingratidão!

Em 1997, quando ingressei no honroso quadro do centenário Instituto Histórico e Geográfico do RN, fiz lá grandes amizades, entre elas, o doutor Grácio Barbalho, (1917-2003) saudoso pesquisador musical e possuidor de um dos maiores acervo de discos em 78 rotações, do Brasil. Os chamados ‘bolachões’, pai do nosso Vinil. As conversas sobre os antigos compositores e intérpretes com doutor Grácio eram no finado Café São Luiz, regadas a café, ou mesmo no Instituto Histórico. Com o referido mestre, tomei verdadeiras aulas sobre Noel Rosa, Chico Alves, Vicente Celestino, Sílvio Caldas e tantos outros monstros consagrados antigos e bons de nossa música popular brasileira.

Em tempos passados, fui convidado por um apresentador de televisão a ser jurado em um programa de calouros e recusei de imediato com a seguinte desculpa: amigo, não nasci feito a Márcia D’Windsor, para dar 10 a todo mundo e muito menos, feito Zé Fernandes, para dar 0 a ninguém. Como ele não entendeu, expliquei-lhe que eu não serviria para julgar ao agrado do público espectador: se o calouro vier cantando estrangeirismo, eu vou ter que dar ‘0’ e se ele chegar cantando em português, eu teria que dar ‘10’. O Brasil aceita tudo, engole o que é de pior do estrangeirismo, mas eu não acendo vela pra defunto ruim e, muito menos, forasteiro ruim. Se gostasse de dinheiro, estaria morando em apartamento e advogando em Natal. Optei por ouvir boa música, ler todos os dias e criar patos e galinhas…

Sei que sou acusado de radical, conservador, bairrista e defensor intransigente da nossa cultura popular. Acusação, que se diga, até adoro como se fora um grande elogio. Acho uma horrenda tristeza quem vive, como se dizia lá na feira do meu Alecrim, lugar no qual fui bem criado como pobre de barriga cheia: “Uma Maria vai com as outras!”. Sou muitíssimo desconfiado com gente que diz que come de tudo que tem na mesa. Escuta todo tipo de música onde chega. Lê de tudo que lhe chega aos olhos. Bebe de tudo que botam em seu copo e faz tudo para agradar aos outros. Sou e vivo como cantava o grande forrozeiro potiguar Elino Julião: “Na minha rede não!” Eu e minha morada temos regras. Temos limites e opiniões. Como dizia o filósofo espanhol, Calderon de La Barca: “Ao rei tudo, menos a honra!”.

Uma manhã de sol, passeando pelas ruas de Fortaleza/CE, entro em um bar ao ouvir o grande Belchior tocando em um som de CD. Muito contente, me sentei, pedi uma cerveja e um tira gosto. Em pouco tempo, colocaram para tocar uma famosa cantora da época, da qual nem lembro mais o nome, só sei que era uma estrangeira que até abusava aqui no Brasil. Aí eu me levantei bruscamente, pedi a conta e dobrei a esquina. Ainda deu tempo de explicar ao garçom o meu gesto sertanejo: entrei aqui a convite do cearense Belchior e você retirá-lo para essa mulher cantar o que nem eu e nem você, sabemos traduzir, meu amigo. Ninguém sabe se ela está até escrachando com nossa mãe…

Eu comecei comprando meus primeiros ‘elepês’ na loja ‘Discol’ na Avenida Presidente Bandeira, e na Modinha, lá no meu Alecrim. Também ia garimpar os discos usados, na então calçada e imediações do cinema São Luiz, ali perto. Com o tempo, cheguei a mais de mil em minha casa. Morando em casas apertadas, tive que me desfazer a contra gosto para os sebos. Restaram a minha coleção de discos antigos sobre carnaval e mais de uma centena de música popular brasileira, os quais estão aqui comigo. Ouvir um disco é um ritual. Limpá-los, pegá-los com carinho e acertar a agulha para ouvi-los. E, principalmente, ler e ver as fotos dos encartes. A vida é uma roda giratória. No passado, vendi quase todos os meus discos e, hoje, tento recuperá-los para amenizar o que perdi. Alegria quando os acho é igual a pinto em beira de cerca ou menino achando chocolates no caminho da escola. Como também não posso esquecer de dizer-lhes que já recebi raridades através de doações e presentes em discos e cds.

Mas, antes de encerrar, quero aqui lhes contar uma historinha de uma ex católica, a qual se converteu evangélica. E esta, para garantir a sua entrada no céu e por recomendação de seu pastor, se desfez de seus discos e me passou as santas preciosidades. Discos ótimos, que o tal pastor, achava infernais. Na época, não avisaram a eles, mas, atrevidamente, os faço agora: no céu tem – alegria, paz, natureza despoluída e muita música boa tocando em velhas ‘bocas de som’ espalhadas, em cajueiros e mangueiras. Já no inferno, dizem, que o que mais tem é muita tristeza, choro, poluição e, principalmente, gente mão de vaca que deixou aqui muito dinheiro e não viveu as alegrias da vida. Odiou festas, amizades boas e, ainda, as boas músicas!

E eu vou logo dizendo, mesmo sem ter certeza: onde tiver conversa fiada, sombra de mangueira, mesinhas e muita música, aí eu quero baixar com minha rede e livros, depois desta. E vou até registrar logo em cartório aqui em Nísia Floresta!

Morada São Saruê – Nísia Floresta/RN.

 

* Gutenberg Costa é pedagogo, bacharel em direito, escritor e folclorista.