MILAGRE

Para o amigo Ferrer (in memoriam)

Pés secos, mãos calosas, cabelo maltratado pelo sol e vento, sorriso enterrado, no peito magro e fundo.
Todos os dias, artesão de barro, Zé Torto caminhava lonjuras em busca da melhor argila. Achando o local, extraía-a das barrancas do rio. Levava-a em sacas para o fundo de sua casa; e, lá, misturava-a com mãos cheias de água nova e limpa, amassando-a num ritmo e numa cadência certos, levando-a ao ponto da liga ideal.
Primeiro, Zé Torto separava as pequenas bolas sobre a mesa grande; para, em seguida, dar forma aos objetos de sua artesania. Com esmero e rigor, nasciam (entre os seus dedos magros e ágeis) os frutos e filhos do barro: bois, aves, cadeiras, tamboretes, santos, panelas, pratos, flores.
No fim da manhã, de cócoras, a boia ligeira. Farinha com um pedaço de carne seca. A rapadura era o arremate.
Depois, Zé levantava-se e ia cutucar o fogo da fornalha, alimentando sua bocarra quente com a lenha nova colhida do vale.
Fim de tarde, dispunha toda a sua produção para o cozimento. Antes, sentia o ponto do fogo com o dorso da mão grossa; caso necessário, ajustava-o com mais ou menos carvão.
***

Quase noite, o banho na beira do açude, Zé Torto a limpar a pele com um pedaço de telha e uma bucha velha.
Zé voltava para casa, coava o café e, antes de deitar-se, sondava mais uma vez a fornalha.
Espichado na rede funda, de olhos acesos e postos nas telhas vãs, a mente disparava no campo da lembrança. Zé Torto, com jeito e destreza, a criar potes de histórias, a festejar bichos e alegrias, a misturar risos com santos e acontecidos. Coisas, fatos, homens, bichos. Numa mistura ideal.
Madrugada alta, o sertão de Zé Torto – o homem de pés secos, mãos calosas, cabelo maltratado pelo sol e vento – assistia ao sorriso se desenterrar daquele peito magro e fundo, varando as telhas e ganhando o oco da mataria.
Para, pouco depois, como se cozido naquele peito árido, transmutar-se numa gaitada fervente, milagre de uma artesania indecifrável.
– Ah, ah, ah, ah!…
Os vizinhos, impressionados com aquilo tudo, rezavam, pedindo a guarda da alma de Zé Torto a Deus.

***

Antes do anúncio do dia, Zé Torto, refeito pelo milagre da noite, já tomava o rumo das barrancas do rio. A buscar o barro mais apropriado para o seu artesanato diário.
Voltava, preparava tudo, assando-os no fogo da fornalha; Zé Torto cozeria homens, coisas e bichos.
Lá, na noite longínqua, na curva do tempo, Zé nem sequer desconfiava do arteiro milagre que a sua mente arderia.
– Ah, ah, ah, ah!…